quinta-feira, 1 de abril de 2010

As metáforas gastas dos desencontros


Enquanto subia a rua, apercebia-me de como a luz do fim de tarde dourava os edifícios desta cidade pardacenta... A luz que doura os edifícios, bem sei, uma metáfora velha, gasta como um casaco de que ainda se gosta, mas que já parece mal usar para sair à rua. Não tem importância, “já não há nada de novo aqui debaixo do sol”, o mundo está cheio de metáforas gastas, de lugares-comuns, de frases feitas, e talvez optar por "morder o anzol" nem seja a pior escolha. Pouso a metáfora e a canção: acabei de subir a rua e encontro-me em frente ao espaço do encontro marcado para a hora em que, num dia de sol, os edifícios são menos pardacentos. Hesito um pouco, consulto o telemóvel, como aqueles que fumam acendem, às vezes, um cigarro - para ganhar tempo e coragem. Entro, olho em volta, cumprimento um conhecido e aceno a um quase-conhecido (uma daquelas pessoas a quem nunca fomos apresentados, mas está, frequentemente, nos lugares aonde vamos). Não te vejo. Dirijo-me ao balcão para um café e logo depois peço também um copo de água (não quero marcas amarelas no sorriso que te aguarda impaciente). Espero um pouco mais. Como não sei o que fazer, volto a sair para a rua. E aí estás tu, do lado de lá, onde já não cai a luz do fim de tarde, a segurar a mão de uma rapariga de olhos tristes. Não me vêem, mas eu ouço-a queixar-se de ti, diz que lhe dóis, que a apertas como um par de meias com elásticos demasiado justos. Desenha-me um sorriso, a rapariga de olhos tristes e meias apertadas. Começo a descer a rua devagar enquanto penso que quem espalha assim tristeza pelos olhos de raparigas não merece metáforas novas, não merece sequer a luz do fim da tarde a dourar edifícios pardacentos. Quando a rua acabou de descer, pensei, com desalento, que, dessa tarde, havia de recordar não um encontro feliz, mas apenas o cansaço das metáforas gastas.

2 comentários:

  1. "Quando nos encontramos com alguém e nos apaixonamos, temos a impressão de que todo o Universo está de acordo; hoje eu vi isso acontecer no pôr do Sol. No entanto, se algo corre mal, não sobra nada! Nem as graças, nem a música ao longe, nem o sabor dos lábios dele. Como é que pode desaparecer tão rapidamente a beleza que ali estava há poucos minutos?
    A vida é muito veloz; faz-nos ir do céu ao inferno numa questão de segundos." 11 Minutos de Paulo Coelho
    Ao ler o teu texto... lembrei-me destas palavras...
    Beijos

    ResponderEliminar
  2. Pra ser amor
    Tinha que ser mais forte do que nós
    Ser companhia quando estamos sós
    Ser invisível e abrasador
    Pra ser amor
    Tinha de haver bem mais compreensão
    Tinha que ser maior do que a razão
    Ser imbatível como um vencedor

    Se fosse amor
    Todo o universo ia conspirar
    Dando um remédio para aliviar a dor
    Pra ser amor
    Tinha que ser nós dois
    Pra ser amor
    Tinha que ser amor

    Pra ser amor - Maurício Gasperini

    ResponderEliminar