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sexta-feira, 5 de junho de 2009

quinta-feira, 7 de maio de 2009

St. Georg

St. Georg é um entre os vários bairros interessantes e famosos de Hamburgo. Desde logo, por ser o bairro assumidamente gay: vêem-se várias pequenas bandeiras arco-íris, lojas especialmente dedicadas à pornografia homossexual e desenham-se com todo o à-vontade murais como o da fotografia (a indicar, na mesma linha de "Brockeback Mountain", que não há actividades de coutada homossexual e outras, como os desportos mais violentos, reservadas para machos viris, heterossexuais). Agrada-me a naturalidade e abertura com que aqui (pelo menos aparentemente) se lida com a orientação sexual: sem falsos pudores e hipocrisias, mas igualmente sem um carnaval de excentricidade que hoje, julgo, já não se justifica. Os excessos e o alarido fazem sentido (são até indispensáveis) em épocas em que é forçoso mudar mentalidades e despertar consciências (lembro-me de "Milk"). Aqui percebe-se que isso está feito e, assim, basta gozar tranquilamente a liberdade assegurada. Por outro lado - e continua a ser uma perspectiva superficial de turista curiosa - não se nota a pressão de forçar quem quer que seja a "assumir" seja o que for. Aborrecem-me sobremaneira os ditos jocosos em torno de alguém que "devia assumir-se" e "nunca mais sai do armário". Uma coisa é a hipocrisia e as mentiras que apanham incautos num enredo de infelicidade (como se fossem figurantes numa peça de teatro em que desconhecem o leitmotiv do guião e, por isso, não conseguem ajustar-se ao papel que lhes coube representar) - aspecto de que o novo filme "Outrage" pretende tratar - mas querer forçar uma vontade de erguer ao público um cartaz no qual se inscreva a homossexualidade daquele cuja própria sensibilidade e pudor quer deixar em segredo é uma coisa muito distinta. Nunca ouvi que o sadomasoquismo ou a impotência - e tantas outras coisas mais - devessem ser publicamente "assumidos".

De volta a St. Georg, acrescento que é, de um modo geral, simpático, descontraído, agradável. A "Steindamm", confesso, assustou-me um pouco ao exibir, às 13 da tarde, uma decadência mais própria de um fim de noite, mas a "Lange Reihe", na sua variada extensão de lojas, cafés, restaurantes e residências de tijolo vermelho, encantou-me. O fim desta rua reservou-me uma última surpresa: a criatividade arquitectónica do ADA 1 (An der Alster, complexo 1). E a beleza do Alster ali mesmo, ao virar da esquina...

domingo, 26 de abril de 2009

Os nomes e as coisas: dar nomes às coisas ou "dar coisas aos nomes"

Tanto quanto me tinha sido dado a entender o correspondente ao «Lux» de Lisboa seria, aqui, um sítio chamado «Uebel & Gefährlich», isso mesmo «sinistro e perigoso». Uma vez que a discoteca está instalada num edifício construído durante a 2.ª guerra mundial, pelo terceiro Reich, com o objectivo de servir de abrigo e constituir um escudo protector de ataques aéreos - um portentoso bloco de cimento chamado Flakturm IV -, a respectiva visita ficava também justificada por um motivo de interesse turístico. Reunida a necessária motivação (sobretudo histórica e cultural, evidentemente), no Sábado à noite lá fui eu visitar este edifício assustador com um nome premonitório. À conta de dois DJs que tratariam de animar o sítio paguei logo 20 € de entrada, sem direito a bebida, e ainda recebi na pele um daqueles carimbos inestéticos que irritam muito até finalmente desaparecerem à 12ª lavagem. Para se chegar ao espaço da discoteca há que subir vários lanços de escadas cujo estilo «bunker» ninguém se preocupou em disfarçar. As escadas, em caracol, são altamente gefärlich para quem se aventurar além do respectivo limiar mínimo de embriaguez, ou para a donzela, não foi o meu caso, que quiser exibir o desequilíbrio de uns sapatos altos. A música escolhida pelos DJs - que mais pareciam dois excessivamente conscienciosos estudantes universitários (acho que o nome técnico é "nerd") de rosto muito pálido a combinar com as t-shirts igualmente pálidas - não era má, para quem aprecie o género. Vista de cima, a zona de pista era um pouco uebel (sinistra): não se percebia qualquer movimento ondulante da massa de gente, as pessoas estavam de pé, copo na mão, em modo parado. Claro que, em Portugal, nem sempre encontramos bailarinos por demais habilidosos: dançam, essencialmente, as mulheres e os elementos masculinos não vão, regra geral, muito além de exprimir tremedeira numa das pernas e, quando já um pouco embriagados, lá arriscam um passo binário sem sair do lugar. Mas aqui, salvo um pequeno espaço em frente ao palco dos DJs, não dançava ninguém e, pior, alguns aproveitavam mesmo uma espécie de degraus para se sentarem no meio do que seria uma pista de dança. Em resumo: «uebel und gefährlich». E nada como o rigor e a precisão germânica quando é preciso dar nomes às coisas.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

she's dancing...

(fotografia de uma escultura de Degas)
...he's dreaming
A certa altura da sua vida de artista, Degas começou a perder a visão. Deixou por isso de preocupar-se com a precisão dos detalhes e colocou o foco de interesse na postura e no movimento. Da restrição de um sentido essencial resultaram alguns dos mais belos trabalhos do pintor e escultor. A sua preocupação não era exprimir a beleza da mulher (predominantemente a bailarina ou a prostituta) que se expõe a uma audiência, mas a intimidade de quem não se adivinha observada pelo buraco da fechadura.

"Café Paris" ou os lugares e as possibilidades


Quando chego a uma cidade nova (nem que seja para aí passar apenas um dia), há sempre um momento em que sinto uma necessidade imperiosa de parar num lugar, tomar um café, ler um livro sossegado e escrevinhar umas notas inquietas. Muitas são as vezes em que não consigo encontrar o sítio perfeito capaz de corresponder a esta necessidade (e lá tenho de me ajustar ao desconsolo do lugar). Na verdade, não foi fácil encontrar o Café Paris: não é um sítio evidente e de modo nenhum um «spot» para turistas. Depois de espreitar os «must see» do centro e de girar entre as marcas franchisadas que sempre nos fazem duvidar do lugar do mundo em que nos encontramos, quase sucumbi à facilidade monótona de entrar num Starbucks ou num Balzac (ou quem sabe um Cup & Cino) para tomar uma coisa, petiscar outra e aceitar a globalização pouco criativa das cadeias que, pelo facto de aparecerem em vários pontos de todas as cidades assumidamente cosmopolitas, se converteram em lugares sem identidade, quase não-lugares. Ora, o Café Paris é um lugar. E é um lugar perfeito. É certo que ele transporta um cheiro forte de Paris (uma Paris que já talvez nem exista e apenas corresponda ao meu imaginário preconceituoso) para o Norte da Alemanha. Além dos ícones evidentes – e até escusados, diga-se – (como o boneco torre Eiffel, as garrafas de champagne ou de água Perrier a decorar as estantes), há o cabedal verde do sofá que ocupa toda uma parede, há as pequenas mesas e cadeiras de madeira (que me permitem ressuscitar um Sartre e uma Simone, cada um ao lado do respectivo amante do momento), há a grade decorativa e o candeeiro Art Nouveau e há os garçons e as garçonnettes a desfilar impecáveis de laço preto e avental branco. Mas há também um balcão longo a lembrar o famoso quadro de Hopper (sem a figura solitária é certo), e há todo um cortejo de ocupantes a devolver-me a certeza de que o mundo ocidental mantém a sua diversidade e identidade. Enquanto saboreio o meu “plat du jour”, lembro-me de personagens que conheci no papel e penso em outras que gostaria de inventar. Agrada-me o erotismo de um lugar com história (fundado em 1882, inscrito na parede) e estórias. Agrada-me a sensação de acreditar que eu podia ser uma outra coisa qualquer e viver uma história diferente da que traço dia a dia. De repente, invade-me aquela saudade estranha do futuro e uma nostalgia imensa de épocas que nunca vivi e por isso nunca foram minhas.
O Café Paris é um lugar. E é um lugar que me consola. Tem o cheiro de outra nação, é certo, a invadir a cidade de Hamburgo. Mas esta não se deixa conquistar. Mantém-se firme na identidade dos seus habitantes que enchem o espaço de possibilidades. E às vezes é só disso, e apenas disso, que precisamos para podermos voltar tranquilos a nós próprios – do esboço de uma possibilidade.

sábado, 11 de abril de 2009

... e pelos meus também não



De qualquer modo, desejos de uma Páscoa Feliz. Aproveitem os feriados (com ou sem sol), para pecar ou para jejuar, conforme as respectivas preferências...

quarta-feira, 8 de abril de 2009

sol, preconceitos e diferenças culturais



À conta do sol, da simpatia e solicitude daqueles com quem me vou cruzando (a pôr em causa preconceitos antigos sobre o carácter frio e rude deste povo), das arcadas de estilo italiano e do vendedor de tapetes turco à janela quase esquecia que me encontro muitos quilómetros a Norte de casa. Quase. Não fossem alguns pequenos detalhes a evidenciar as diferenças culturais e a trazer de volta a lembrança do ponto geográfico que ocupo agora.


Quando cheguei ao instituto, depois de uma pequena espera, fui introduzida num gabinete onde uma funcionária simpática preencheu cuidadosamente a minha ficha. Depois voltei à recepção onde uma outra funcionária, menos simpática, procedeu a um registo e entregou-me um crachá de cor amarela com algumas advertências: deve usar sempre esta identificação dentro do instituto para que todos saibam qual é o seu estatuto, se perder o crachá paga 25 €, não pode em caso algum ceder esse crachá a alguém ou permitir que alguém entre consigo na biblioteca (como se algum dos meus amigos ou quem sabe algum louco que conhecesse pelas ruas se matasse por ir sentar o rabo numa cadeira a ler livros de Direito, bolas, eu chamo-lhe «profissão» e uso outros adjectivos para qualificar o trabalho diferentes de devoção). Dito isto, acrescentou: está aqui uma folha com as instruções sobre o que não lhe é permitido fazer na biblioteca, leia com atenção para evitar problemas. Entre outras coisas, proibe-se que seja levada comida ou bebida para dentro da biblioteca, com excepção de uma garrafa de água, que deve ser colocada no lixo, assim que a água tenha sido bebida (regra muito sensata para evitar pequenos cemitérios de garrafas de água em cima de cada mesa).


À hora em que o meu estomâgo avisou que não aguentava mais sem almoço tentei perceber qual seria o local para o efeito, mas não vi ninguém a dirigir-se para outro sítio que não fosse a respectiva secretária ou os corredores que conduzem à sabedoria empilhada em estantes. Só me tinha dado conta da existência de uma pequena cafeteria com duas máquinas automáticas uma de cafés, chás e afins e a segunda com chocolates e outras coisas igualmente incapazes de satisfazer a minha fome. Decidi, pois, dirigir-me a um funcionário, o diligente Mr. David. ""Há mais algum sítio para comer além da cafeteria, uma cantina ou algo assim?" perguntei delicada e ingenuamente. Ele olhou-me não sem algum espanto: "há a cafeteria que está lá para isso mesmo, para que os estudantes possam comer", respondeu. "Mas na cafeteria só há uma máquina com chocolates e outra com bebidas", insisti eu, já com receio de o ofender e de passar por uma louca portuguesa preguiçosa que quer fazer uma pausa para almoçar. "Ahh!", fez-se luz no cérebro germânico, "quer dizer um sítio onde possa comprar comida". Pois claro, como me expliquei tão mal, há que ser rigoroso: um sítio para comer e um sítio onde se compra comida são duas coisas distintas e eu demorei dois minutos e meio a perceber uma classificação tão básica.


quarta-feira, 1 de abril de 2009

Rothenbaumchaussee, 34

Esta é a vista da minha janela pelos próximos 120 dias. Em vez do mar, prédios, em vez da luz do sol a insinuar-se segura de si desde as primeiras horas da manhã, árvores despidas. Mas, não sei bem porquê, desde que os meus pés cumprimentaram o chão de um espaço que só com muito boa vontade pode ser qualificado como confortável e o meu nariz sentiu um cheiro longe de fresco ou agradável, eu percebi que me ia sentir bem aqui.
No segundo dia, dois pássaros felizes vieram cumprimentar-me e no quarto um esquilo muito ruivo veio dar-me os bons dias.

E a Primavera concedeu-me o privilégio de chegar à cidade antes de mim e de já cá estar para me receber.