
ou como escapar ao tédio
St. Georg é um entre os vários bairros interessantes e famosos de Hamburgo. Desde logo, por ser o bairro assumidamente gay: vêem-se várias pequenas bandeiras arco-íris, lojas especialmente dedicadas à pornografia homossexual e desenham-se com todo o à-vontade murais como o da fotografia (a indicar, na mesma linha de "Brockeback Mountain", que não há actividades de coutada homossexual e outras, como os desportos mais violentos, reservadas para machos viris, heterossexuais). Agrada-me a naturalidade e abertura com que aqui (pelo menos aparentemente) se lida com a orientação sexual: sem falsos pudores e hipocrisias, mas igualmente sem um carnaval de excentricidade que hoje, julgo, já não se justifica. Os excessos e o alarido fazem sentido (são até indispensáveis) em épocas em que é forçoso mudar mentalidades e despertar consciências (lembro-me de "Milk"). Aqui percebe-se que isso está feito e, assim, basta gozar tranquilamente a liberdade assegurada. Por outro lado - e continua a ser uma perspectiva superficial de turista curiosa - não se nota a pressão de forçar quem quer que seja a "assumir" seja o que for. Aborrecem-me sobremaneira os ditos jocosos em torno de alguém que "devia assumir-se" e "nunca mais sai do armário". Uma coisa é a hipocrisia e as mentiras que apanham incautos num enredo de infelicidade (como se fossem figurantes numa peça de teatro em que desconhecem o leitmotiv do guião e, por isso, não conseguem ajustar-se ao papel que lhes coube representar) - aspecto de que o novo filme "Outrage" pretende tratar - mas querer forçar uma vontade de erguer ao público um cartaz no qual se inscreva a homossexualidade daquele cuja própria sensibilidade e pudor quer deixar em segredo é uma coisa muito distinta. Nunca ouvi que o sadomasoquismo ou a impotência - e tantas outras coisas mais - devessem ser publicamente "assumidos".
De volta a St. Georg, acrescento que é, de um modo geral, simpático, descontraído, agradável. A "Steindamm", confesso, assustou-me um pouco ao exibir, às 13 da tarde, uma decadência mais própria de um fim de noite, mas a "Lange Reihe", na sua variada extensão de lojas, cafés, restaurantes e residências de tijolo vermelho, encantou-me. O fim desta rua reservou-me uma última surpresa: a criatividade arquitectónica do ADA 1 (An der Alster, complexo 1). E a beleza do Alster ali mesmo, ao virar da esquina...
Tanto quanto me tinha sido dado a entender o correspondente ao «Lux» de Lisboa seria, aqui, um sítio chamado «Uebel & Gefährlich», isso mesmo «sinistro e perigoso». Uma vez que a discoteca está instalada num edifício construído durante a 2.ª guerra mundial, pelo terceiro Reich, com o objectivo de servir de abrigo e constituir um escudo protector de ataques aéreos - um portentoso bloco de cimento chamado Flakturm IV -, a respectiva visita ficava também justificada por um motivo de interesse turístico. Reunida a necessária motivação (sobretudo histórica e cultural, evidentemente), no Sábado à noite lá fui eu visitar este edifício assustador com um nome premonitório. À conta de dois DJs que tratariam de animar o sítio paguei logo 20 € de entrada, sem direito a bebida, e ainda recebi na pele um daqueles carimbos inestéticos que irritam muito até finalmente desaparecerem à 12ª lavagem. Para se chegar ao espaço da discoteca há que subir vários lanços de escadas cujo estilo «bunker» ninguém se preocupou em disfarçar. As escadas, em caracol, são altamente gefärlich para quem se aventurar além do respectivo limiar mínimo de embriaguez, ou para a donzela, não foi o meu caso, que quiser exibir o desequilíbrio de uns sapatos altos. A música escolhida pelos DJs - que mais pareciam dois excessivamente conscienciosos estudantes universitários (acho que o nome técnico é "nerd") de rosto muito pálido a combinar com as t-shirts igualmente pálidas - não era má, para quem aprecie o género. Vista de cima, a zona de pista era um pouco uebel (sinistra): não se percebia qualquer movimento ondulante da massa de gente, as pessoas estavam de pé, copo na mão, em modo parado. Claro que, em Portugal, nem sempre encontramos bailarinos por demais habilidosos: dançam, essencialmente, as mulheres e os elementos masculinos não vão, regra geral, muito além de exprimir tremedeira numa das pernas e, quando já um pouco embriagados, lá arriscam um passo binário sem sair do lugar. Mas aqui, salvo um pequeno espaço em frente ao palco dos DJs, não dançava ninguém e, pior, alguns aproveitavam mesmo uma espécie de degraus para se sentarem no meio do que seria uma pista de dança. Em resumo: «uebel und gefährlich». E nada como o rigor e a precisão germânica quando é preciso dar nomes às coisas.
(fotografia de uma escultura de Degas) 


Esta é a vista da minha janela pelos próximos 120 dias. Em vez do mar, prédios, em vez da luz do sol a insinuar-se segura de si desde as primeiras horas da manhã, árvores despidas. Mas, não sei bem porquê, desde que os meus pés cumprimentaram o chão de um espaço que só com muito boa vontade pode ser qualificado como confortável e o meu nariz sentiu um cheiro longe de fresco ou agradável, eu percebi que me ia sentir bem aqui.
E a Primavera concedeu-me o privilégio de chegar à cidade antes de mim e de já cá estar para me receber.