
À conta do sol, da simpatia e solicitude daqueles com quem me vou cruzando (a pôr em causa preconceitos antigos sobre o carácter frio e rude deste povo), das arcadas de estilo italiano e do vendedor de tapetes turco à janela quase esquecia que me encontro muitos quilómetros a Norte de casa. Quase. Não fossem alguns pequenos detalhes a evidenciar as diferenças culturais e a trazer de volta a lembrança do ponto geográfico que ocupo agora.
Quando cheguei ao instituto, depois de uma pequena espera, fui introduzida num gabinete onde uma funcionária simpática preencheu cuidadosamente a minha ficha. Depois voltei à recepção onde uma outra funcionária, menos simpática, procedeu a um registo e entregou-me um crachá de cor amarela com algumas advertências: deve usar sempre esta identificação dentro do instituto para que todos saibam qual é o seu estatuto, se perder o crachá paga 25 €, não pode em caso algum ceder esse crachá a alguém ou permitir que alguém entre consigo na biblioteca (como se algum dos meus amigos ou quem sabe algum louco que conhecesse pelas ruas se matasse por ir sentar o rabo numa cadeira a ler livros de Direito, bolas, eu chamo-lhe «profissão» e uso outros adjectivos para qualificar o trabalho diferentes de devoção). Dito isto, acrescentou: está aqui uma folha com as instruções sobre o que não lhe é permitido fazer na biblioteca, leia com atenção para evitar problemas. Entre outras coisas, proibe-se que seja levada comida ou bebida para dentro da biblioteca, com excepção de uma garrafa de água, que deve ser colocada no lixo, assim que a água tenha sido bebida (regra muito sensata para evitar pequenos cemitérios de garrafas de água em cima de cada mesa).
À hora em que o meu estomâgo avisou que não aguentava mais sem almoço tentei perceber qual seria o local para o efeito, mas não vi ninguém a dirigir-se para outro sítio que não fosse a respectiva secretária ou os corredores que conduzem à sabedoria empilhada em estantes. Só me tinha dado conta da existência de uma pequena cafeteria com duas máquinas automáticas uma de cafés, chás e afins e a segunda com chocolates e outras coisas igualmente incapazes de satisfazer a minha fome. Decidi, pois, dirigir-me a um funcionário, o diligente Mr. David. ""Há mais algum sítio para comer além da cafeteria, uma cantina ou algo assim?" perguntei delicada e ingenuamente. Ele olhou-me não sem algum espanto: "há a cafeteria que está lá para isso mesmo, para que os estudantes possam comer", respondeu. "Mas na cafeteria só há uma máquina com chocolates e outra com bebidas", insisti eu, já com receio de o ofender e de passar por uma louca portuguesa preguiçosa que quer fazer uma pausa para almoçar. "Ahh!", fez-se luz no cérebro germânico, "quer dizer um sítio onde possa comprar comida". Pois claro, como me expliquei tão mal, há que ser rigoroso: um sítio para comer e um sítio onde se compra comida são duas coisas distintas e eu demorei dois minutos e meio a perceber uma classificação tão básica.

Que descrição tão gira!!
ResponderEliminarDe facto a diferença é abismal. :-)
Quanto ao carácter frio dos cidadãos em causa, não me posso queixar... na minha aventura solitária por Frankfurt, não podia ter sido mais bem recebida!
Educação é algo bem distinto de bajulação... e é impressionante como eles têm sempre um Hallo ou Guten Tag pronto a disparar, sempre que entramos em algum estabelecimento.
Ich wünsch dir einen guten Tag!
Bis gleich!
A propósito do teu texto tão «radiografia», a propósito do rigor e da disciplina que normalmente se reconhecem na cultura e na língua alemã (e não é exactamente por isso que tanto nos cativam?), a propósito de uma viagem a Santiago de Compostela e a propósito do «Día das Letras Galegas» que se aproxima (17 de maio), lembrei-me das palavras de Ramón Piñeiro: «De todos os elementos en que unha cultura se afinca, o idioma é o máis radical e representativo» ...
ResponderEliminarAfinal, "há que ser rigoroso: um sítio para comer e um sítio onde se compra comida são duas coisas distintas"!!!