
Quando chego a uma cidade nova (nem que seja para aí passar apenas um dia), há sempre um momento em que sinto uma necessidade imperiosa de parar num lugar, tomar um café, ler um livro sossegado e escrevinhar umas notas inquietas. Muitas são as vezes em que não consigo encontrar o sítio perfeito capaz de corresponder a esta necessidade (e lá tenho de me ajustar ao desconsolo do lugar). Na verdade, não foi fácil encontrar o Café Paris: não é um sítio evidente e de modo nenhum um «spot» para turistas. Depois de espreitar os «must see» do centro e de girar entre as marcas franchisadas que sempre nos fazem duvidar do lugar do mundo em que nos encontramos, quase sucumbi à facilidade monótona de entrar num Starbucks ou num Balzac (ou quem sabe um Cup & Cino) para tomar uma coisa, petiscar outra e aceitar a globalização pouco criativa das cadeias que, pelo facto de aparecerem em vários pontos de todas as cidades assumidamente cosmopolitas, se converteram em lugares sem identidade, quase não-lugares. Ora, o Café Paris é um lugar. E é um lugar perfeito. É certo que ele transporta um cheiro forte de Paris (uma Paris que já talvez nem exista e apenas corresponda ao meu imaginário preconceituoso) para o Norte da Alemanha. Além dos ícones evidentes – e até escusados, diga-se – (como o boneco torre Eiffel, as garrafas de champagne ou de água Perrier a decorar as estantes), há o cabedal verde do sofá que ocupa toda uma parede, há as pequenas mesas e cadeiras de madeira (que me permitem ressuscitar um Sartre e uma Simone, cada um ao lado do respectivo amante do momento), há a grade decorativa e o candeeiro Art Nouveau e há os garçons e as garçonnettes a desfilar impecáveis de laço preto e avental branco. Mas há também um balcão longo a lembrar o famoso quadro de Hopper (sem a figura solitária é certo), e há todo um cortejo de ocupantes a devolver-me a certeza de que o mundo ocidental mantém a sua diversidade e identidade. Enquanto saboreio o meu “plat du jour”, lembro-me de personagens que conheci no papel e penso em outras que gostaria de inventar. Agrada-me o erotismo de um lugar com história (fundado em 1882, inscrito na parede) e estórias. Agrada-me a sensação de acreditar que eu podia ser uma outra coisa qualquer e viver uma história diferente da que traço dia a dia. De repente, invade-me aquela saudade estranha do futuro e uma nostalgia imensa de épocas que nunca vivi e por isso nunca foram minhas.
O Café Paris é um lugar. E é um lugar que me consola. Tem o cheiro de outra nação, é certo, a invadir a cidade de Hamburgo. Mas esta não se deixa conquistar. Mantém-se firme na identidade dos seus habitantes que enchem o espaço de possibilidades. E às vezes é só disso, e apenas disso, que precisamos para podermos voltar tranquilos a nós próprios – do esboço de uma possibilidade.
«Quero ficar junto a este rio, pensou ...
ResponderEliminarOlhou afectuosamente para a água, para o seu verde translúcido, para as linhas cristalinas dos seus contornos cheios de segredos. Viu pérolas cintilantes emergirem do fundo, bolhas de ar flutuando serenamente no espelho de água, reflectindo o azul do céu. O rio olhava para ele com mil olhos, verdes, brancos, cristalinos, azuis celestes. Como ele amava esta água, como ela o fascinava, quão agradecido lhe estava! Ouvia a voz falar-lhe no seu coração, desperta outra vez, dizendo-lhe: Ama esta água! Fica junto a ela! Aprende com ela! Sim, ele queria aprender com ela, queria escutá-la. Parecia-lhe que quem compreendesse esta água e os seus segredos compreenderia muitas outras coisas, muitos segredos, todos os segredos.»
Sobre a força e o poder dos lugares...
Hermann Hesse, in Siddhartha