terça-feira, 10 de novembro de 2009

I am a bird...


... and have been searching for my wings sometime...

Quando anoitece, ajoelho-me reverente sob a lua, junto as mãos e peço em silêncio:
"Nossa Senhora das Coisas Impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas,
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem, e afaga-nos,
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós"

(a música é de Antony & the Johnsons; o excerto de Álvaro de Campos)

domingo, 8 de novembro de 2009

e, afinal, para que serve essa coisa que chamam amor?




"A chaque fois j'y crois
Et j'y croirai toujours...
Ça sert à ça, l'amour !"


(um dueto com Edith Piaf e o seu jovem amante Théo Sarapo)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

desabafo (a preto e branco)

E o que é que eu faço quando me sinto cansada, saturada, desanimada, frustrada, desconsolada, sufocada e saturada (sim, duas vezes saturada)?

Não faço nada. Sento o rabo na cadeira, ligo o computador e continuo a trabalhar.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

«Flâneurie»



Na verdade, Paris não existe; é apenas um sonho.


Há, no entanto, qualquer coisa de especial no cruzar das avenidas que parecem alargar-se à nossa passagem, nas árvores que se pintam de Outono, nas montras que se decoram com luxo e bom-gosto e na musicalidade (alegre, indolente ou pretensiosa) com que as empregadas de café nos atiram um "j'arrive", que faz desta a cidade perfeita para deambular sem destino, ao sabor dos pés e ao ritmo do desejo...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

«Fugit Amor»

(escultura de Rodin, museu Rodin, Paris)

Algumas vezes, era eu quem tentava agarrá-lo. Sentia-o próximo, ao alcance de duas mãos que precisava apenas de estender para fazê-lo meu. Mas quando finalmente o tocava, o Amor contorcia-se e eu ficava a vê-lo escorregar-me por entre os dedos.
Outras vezes, era o Amor quem estava lá, à minha espera, e era eu quem, num volteio, escapava apressada para outro lugar.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Vasco, p(o)lido e valente?


Vasco Pulido Valente é, sem dúvida, um homem culto e um cronista hábil e arguto. Leio, por isso, com elevada frequência e interesse as crónicas publicadas na última página do jornal Público. No Domingo passado, surpreendi-me, porém, com o conteúdo do texto sobre “o futuro do PSD”. De teor que se me afigura ofensivo, a crónica naufraga no lugar-comum. Afirmar-se que Cavaco Silva deixou o partido acéfalo ou policéfalo já foi dito por vários e pelo próprio em outras ocasiões, ou seja, não traz nada de novo e já não tem qualquer actualidade política – não interessa a ninguém. A falta de originalidade seria, porém, recebida com a maior tolerância (o momento político de ressaca dos resultados das eleições legislativas justifica-o, com certeza), não fosse o teor claramente ofensivo com que se refere aos visados. Uns já estão mortos e enterrados (a actual líder é, vá lá, apenas um espécime sob o perigo de extinção), um outro é “uma nulidade enfatuada” e outro ainda dotado apenas de uma “retórica brumosa”, mas sem qualquer qualidade política. Estranhamente, não há sequer uma palavra sobre o vice-presidente do partido: não é digno delas ou feneciam os atributos depreciativos para o designar? O pior está ainda, quanto a mim, em imputar características aos putativos candidatos a líder pela boca de outrem. Não é Vasco Pulido Valente que pensa de Passos Coelho ser este “um Sócrates de segunda”. Não, Manuela Ferreira Leite é que acha que ele é ou diz-se que ela acha que ele é. Sendo certo que não se trata de uma peça jornalística, obrigada a pagar o tributo da isenção e da seriedade das fontes, mas apenas de um artigo de opinião, não é, definitivamente, curial que se lance mão de insultos e muito menos de uma voz sombra de insulto. Criticar, chamar a atenção para o que vai mal por terras lusas (e lá fora) é sempre útil e bem-vindo, exprimir livremente uma opinião sobre uma qualquer matéria também, mas dizer mal só porque sim, já não. Até para Vasco Pulido Valente foi demais. Caiu no engodo de todos os “independentes da própria independência” (expressão recentemente utilizada pelo maestro Vitorino em entrevista televisiva) que disparam à esquerda e à direita: nadam numa excessiva arrogância e vêm morrer à praia do lugar-comum.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

viajar



"Afinal a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida (...)

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu me sinta como várias pessoas.
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento,
Estiver, viver, sentir, for.
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora. (...)"

(Álvaro de Campos, Poesia)