sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Monocromático #4


 
Novo começo de dia feliz com sol e banhos de mar. Sinto-me bem aqui e vou adiando a saída. Maldita ansiedade (“sempre esta sensação que estou a perder”, vá-se lá saber o quê) que me move para um banho de água doce e me impele a rumar com destino a Malta Sul. Escolho um vestido vermelho e sinto-me atraente enquanto subo a rua até à praça de táxis. Percebo que talvez tenha exagerado no tamanho do decote – está tanto calor que acabo sempre por esquecer-me quão conservador e religioso é este povo – ao sentir os sorrisos e malícias trocadas em maltês (há sorrisos e malícias perceptíveis em qualquer língua) entre o motorista do meu táxi e aquele que se mantém à espera na praça.

Marsaxlokk é um dos cartões postais da ilha: uma pequena povoação piscatória espalhada à volta de uma baía azul onde flutuam luzzus de cores garridas. Os luzzus são barcos de pesca de construção tradicional, em que, por crença antiga, se pinta um olho de Osíris – símbolo de protecção do mal. Logo à chegada quase esbarro com um cortejo dividido entre uma animada devoção à religião e ao álcool. São quase três da tarde e começo a preocupar-me com a possibilidade de já não me deixarem almoçar num dos característicos restaurantes de peixe. Mesmo assim não me precipito na escolha e acabo por sentar-me, depois de alguma hesitação, na esplanada do “Pisces” que, segundo o guia, seria um dos melhores da terra. Ao contrário das esperadas famílias locais, o sítio está repleto de turistas e, admito que a minha escolha não tenha sido a mais feliz, o peixe grelhado que pedi vem afogado num molho de tomate de lata misturado com azeitonas. No sítio de onde venho, também plantado junto ao mar, o peixe grelhado traz apenas limão, para ser espremido a gosto, ou, quando muito, um molho com maionese sempre on the side. Sinto os olhos de duas raparigas francesas sentadas ao lado sobre mim e, por alguma razão – será o calor opressivo que me deixa susceptível –, isso desagrada-me muito. Olho em redor e dou-me conta que ainda não encontrei neste país ninguém que almoce, jante ou passeie sozinho, tudo circula em grupo ou acasalado. Seria certamente o calor sufocante misturado com o molho de tomate a estragar-me o peixe, mas dei por mim a sentir-me a mulata baixinha no grupo de arianas altas ou o tímido rapazinho gay por engano inserido no grupo de marialvas. Porque razão serei a única pessoa a almoçar sozinha? Alguns terminam a refeição e partem, outros chegam para petiscar, entre os quais uma rapariga que traz escrita na t-shirt uma ideia divertida: “stressed, depressed, but well-dressed”. Teria sorrido, não fosse estar demasiado concentrada numa dança de mãos bélica com as moscas que pousam, massacrantes, em todo o lado.

“Como posso chegar a ponta Delimara?”, pergunto à empregada de mesa. Pode ir a pé, demora cerca de 30 minutos, é para a esquerda. Parece-me simples e realizável. Deambulo pela aldeia, entre o porto de pesca e a igreja (na qual não consigo discernir o prometido relógio pintado de modo a registar sempre alguns minutos antes da meia-noite para afastar os maus espíritos), mas o calor é sufocante e sou forçada a parar sob qualquer nesga de sombra a cada 10 minutos. Mesmo assim, inicio, determinada, o caminho com destino a ponta Delimara. O sol é demasiado forte para poder dar-me ao luxo de errar e pergunto logo a duas velhinhas se a direcção certa é aquela – “no speaking english”. Sem esmorecer, viro ligeiramente à direita no mesmo sentido onde do lado de lá espreitei uma praia, na esperança ingénua de que o caminho possa fazer-se junto à água. A praia é pateticamente hilariante: uma estreita língua de areia, saturada de famílias com cães e crianças e cadeirinhas e barracas e colchões; o mar uma banheira comunitária. Escolho cautelosamente um sítio para pousar a mochila e penso numa maneira de trocar a roupa interior pelo bikini, mas não encontro nenhuma (sabe-se lá se não teria ido presa); limito-me a molhar os pés. Saio da praia desanimada, mas mantenho a firme decisão de alcançar Delimara. Pergunto a três turistas alemãs (cujo ar me faz crer que têm uma vida sexual insatisfatória ou atravessam uma menopausa difícil) onde fica o anunciado paraíso “sossegado e rural, com baías pequenas”, mas não fazem a mínima ideia. Que raio de turistas estas que nem querem saber onde ficam os must see dos guias turísticos. Mais 10 minutos sob um sol que me morde, inclemente, o corpo todo e sou eu quem desiste das indicações para turistas crédulas. Sinto o rosto vermelho a latejar, o suor escorre-me dentro do vestido vermelho, o céu cinzento incendiado agride-me, a tonalidade ocre misturada com o pó da estrada oprime-me insuportavelmente… Estou prestes a desfalecer, por favor, tirem-me daqui. Paro num café cujo nome infelizmente esqueci (qualquer coisa com pretensão de modernidade virtual), as listas são screen touch, mas o serviço da Idade da Pedra. Se eu desmaiar, aqui, agora, servem-me, por favor, uma coca-cola com muito gelo e limão? No fim do copo de coca-cola, vejo uma rapariga de bikini, esticada à sombra, a terminar a leitura do seu romance de férias e digo-lhe: “bem-feita, é para aprenderes a ser tranquila”. Quero ir-me embora daqui, depressa, já, táxi, autocarro. Praça de táxis aqui não existe, explicam-me as meninas do bar recheado de tecnologia; autocarros hoje também não passam na rua principal – é por causa da festa. Malditas festividades religiosas; vou ficar presa neste sítio? Avanço rapidamente para o centro e encontro satisfeita um polícia, pois e tal, trânsito aqui, hoje, não pode circular. Se eu puser na boca as frases que tenho na cabeça não deve haver problema, pois não, aqui ninguém percebe português. Finalmente, uma senhora que se move a um ritmo surpreendente, a destoar deste sítio e deste calor, explica-me: pode apanhar o autocarro ali atrás, é só subir a rua e virar à esquerda. Nem acredito quando me sento satisfeita no autocarro com destino a Valletta; a ponta Delimara que fique para quem lá tiver chegado.

Bendito hotel de cinco estrelas e reconfortante jacuzzi sobre o mar…

Saio para jantar e decido logo que é noite de escolher o “Chapter One”. Apregoa qualquer coisa sobre o guia Michelin, mas dá logo para perceber que não tem nenhuma estrela, só uma desculpa para cobrar mais caro. Peço uma sopa e não consigo disfarçar o meu ar desconsolado quando me apresentam uma sopa fria. O empregado, atencioso, oferece-se logo para trocar este prato por outro que o chef se propôs imediatamente preparar para mim. A sopa vai custar-me 10 €, mas para já, ainda não sei, e como-a consolada. Há um bar de jazz com música ao vivo, mesmo aqui ao lado, e decido que hoje é um bom dia para ouvir um pouco de música e ceder, ligeiramente, à embriaguez. Seria um bom dia se o bar estivesse aberto, mas, ou é dia de fecho ou, entretanto, encerraram de vez.

Mesmo em férias, longe de tudo, nunca deixa de ser assim: há dias que correm bem e outros que emperram, mal oleados.           

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Monocromático # 3


Hoje o destino é Malta central. Acordo cedo e saboreio com prazer a delícia fresca do Mediterrâneo na minha pele. O sol é forte logo de manhã e mal consigo terminar um cappuccino e croissant na varanda larga do hotel. Estendo-me algum tempo a ler, alternando as carícias quentes dos raios solares com o contacto fresco das ondas do mar. Sabia-me bem ceder a esta preguiça suave o resto do dia, mas não quero perder a oportunidade de explorar os vários recantos da ilha. À hora indicada no horário, dirijo-me à paragem do 205, com destino a Naxxar. Espero, sob um sol escaldante, durante cerca de 10 minutos, após o que procuro desesperadamente uma sombra. Mesmo à sombra, o calor é um teste impiedoso à minha paciência, já de si reduzida: 15 minutos depois desisto, irritada, do autocarro e procuro um táxi que me deixa mesmo em frente ao Palazzo Parisio.

O palácio foi construído no século XVIII por um grão-mestre português – Manoel de Vilhena – e depois comprado por um marquês italiano – Giuseppe Scicluna – que o converteu numa das residências mais luxuosamente belas da ilha. São os descendentes do marquês quem continua a ocupar e a gerir o palácio e os seus jardins. Almoço no 1.º jardim um prato de sabores malteses: tomate semi-seco, azeitonas recheadas, queijo de cabra mergulhado em azeite, salsicha maltesa e pão maltês. Delicioso, mas o tempero demasiado intenso impede-me de o terminar; um café, saboreado com calma, e estou pronta para conhecer a residência palaciana. Sou a única visitante, o que me dá a oportunidade de observar com tempo e cuidado os detalhes extravagantemente luxuosos e de sentir-me parte das histórias que vou escutando sobre as várias salas sumptuosas: a de baile, a de música, a de bilhar, a biblioteca…Depois de percorrer os jardins, despeço-me e, mal tenho tempo para hesitar, salto para o autocarro com destino a Mosta.

A igreja paroquial de Mosta tem uma cúpula gigante e a história de um milagre para contar: durante a segunda guerra mundial, uma bomba trespassou a majestosa cúpula, caiu no chão e deslizou pela igreja, sem explodir, e sem pôr fim à vida das cercas de trezentas pessoas que aí assistiam ao serviço religioso. Além da igreja, Mosta não parece ter muito mais para oferecer e dou por mim de novo, sob um sol que me morde impiedosamente os ombros descobertos, à espera do 205, agora com destino a Rabat/Mdina. Passado algum tempo outra vez amaldiçoo esta linha de autocarros e chamo um táxi.

Quando chego a Mdina, já todos os lugares que gostaria de visitar estão vedados: o museu da catedral está irritantemente encerrado, pelo que digo adeus às gravuras de Dürer, e a entrada na catedral de S. Paulo cerceada por um segurança antipático que só franqueia o acesso a assistentes do serviço religioso; a máquina fotográfica e os ombros desnudos traem-me e sou obrigada a dar meia volta. Apesar de tudo, é uma boa hora para visitar aquela a que chamam “cidade do silêncio”, antiga capital de Malta: há poucos turistas, o calor não perturba e a luz do fim de dia cria sombras dramáticas nos edifícios protegidos pelas muralhas. Sinto-me outra vez parte de uma história, mas agora ninguém ma conta, invento-a eu… Antes do regresso, paro ainda na esplanada de Fontanella (dona de uma história cujo enredo esqueci) para um chá e um bolo. As moscas arreliam-me e atordoam-me, mudo de mesa, mas, apesar da paisagem, algo me desagrada neste local. Sem terminar o bolo de cenoura, abandono a cidade e regresso a St. Julian’s.

Janto num restaurante simpático na baía de Spinola e, durante o pequeno passeio, junto ao mar, fotografo, divertida, alguns pares de namorados que mo pedem – talvez a aparência da D90 os faça crer que estão nas mãos de alguém que sabe o que faz.         

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Monocromático #2


 

Acordo recuperada e ansiosa por encher os olhos de coisas novas. Tomo o pequeno-almoço num café que ontem me pareceu bem, a oferecer-se todo branco e aberto para a rua, mas que hoje está sobrepovoado de turistas adolescentes que me fazem sentir deslocada, envelhecida. Já não me lembro de ter sido assim, o que significa que passou tempo demais desde então. Alguma vez terei sido assim?
O n.º 12 não se faz esperar e sigo com destino à capital: La Valletta. Deveria descer em Sliema e apanhar o ferry para ter a oportunidade de ver e fotografar a vista de cartão postal da cidade, mas só tarde demais haverei de aperceber-me desta possibilidade perdida. Saio na bonita estação de autocarros da cidade e quase não tenho tempo para hesitar sobre a direcção a seguir: o centro histórico está mesmo em frente. O calor começa a fazer sentir-se demasiado forte, mas nem faço ideia de que horas sejam. Sem relógio, sem telefone e sem mapa: uma excessiva confiança na sorte e no instinto. Mas sinto-me leve e sei bem o que quero visitar e em que rua fica. “Triq ir-Repubblika?” pergunto a dois homens sentados à sombra. Preocupam-se mais em corrigir-me a pronúncia – “Não é Triq é Driq” (triq significa rua em maltês) – do que em explicar-me devidamente que caminho tomar. Acabo por seguir enganada por indicações contraditórias até decidir entrar sem permissão num edifício oficial (que venho depois a aprender é o gabinete do presidente maltês) e exigir ao guarda de olhos espantosamente azuis: “estou farta de andar de um lado para o outro, quero saber, sem enganos, onde fica a catedral de S. João”. Sorri, simpático, e esclarece-me com determinação: muito fácil, mas nada a ver com a primeira indicação. Na catedral, o bilhete de entrada inclui um sistema de audioguide bastante razoável, mas sente-se um calor abafado que as várias ventoinhas espalhadas no recinto mal conseguem disfarçar e o lenço, que à entrada me obrigam a usar para tapar os ombros, só piora. O calor, a carteira, a máquina fotográfica, o lenço, o mapa da visita, o sistema áudio e o seu comando sobram para duas mãos e um pescoço: tudo dentro do saco e posso finalmente apreciar a catedral sem estorvos.
 












A co-catedral de S. João (e vim-me embora sem perceber a razão do prefixo) é exuberante: o chão está coberto de pedras tumulares (onde estão sepultados os grão-mestres, incluindo Jean de la Vallette, que deu o nome à cidade) em mármore colorido; as paredes esculpidas com flores e insígnias; o tecto, pintado com frescos de Mattia Preti, ilustra a vida de S. João. A cada passo, um bocado de história; a cada passo, a glória e a morte – os dois momentos cruciais do percurso de um herói. Numa parede, uma cruz pintada capta a minha atenção e sinto-me quase emocionada quando leio no cartaz adjacente o nome do seu autor. Logo a seguir, no espaço designado “Oratório”, mais dois Caravaggio enobrecem o local. Sento-me num banco, o mais próximo possível de uma ventoinha, a admirar as obras do mestre do chiaro-oscuro: “A decapitação de S. João Baptista” e “St. Jerome”. Apesar do seu modo de vida “arruaceiro” (chega a Malta fugido de um homicídio que provocara numa briga de rua), Caravaggio é feito cavaleiro da Ordem de S. João, mas, pouco tempo depois, é-lhe retirada a dignidade de cavaleiro por se ter envolvido de novo em sarilhos.
Logo de seguida, sem almoçar – os horários de visita são inexplicavelmente reduzidos em época de elevado turismo, tudo encerra pelas 16h30 – rumo ao palácio do grão-mestre. O palácio não tem o mesmo impacto da catedral, mas vale a pena uma visita atenta às várias salas luxuosas e ao arsenal; infelizmente o pátio de Neptuno é de acesso vedado ao público e limito-me a espreitá-lo pelas janelas.
É mais do que tempo de fazer uma paragem no “Caffé Cordina”, dito o mais antigo de Valletta, e confirmar que os pastizzi (folhados) malteses são, de facto, excepcionais.
Deambulo um pouco mais pela cidade, mas percebo que entrar em palácios, catedrais ou museus, já era: ou terminaram as horas de visita ou há sítios (como o Teatro Manoel) que nem sequer abrem. Dirijo-me, por isso, ao Barakka de Cima para terminar a minha visita pela cidade com o regalo da vista magnífica sobre o Grande Porto e as “Três cidades” e o consolo dos pés num banco de jardim. O calor começa a dar tréguas. Desço para apanhar o autocarro de regresso: o n.º 13, com destino a St. Julian´s. Outra vez Porto Maso para jantar: um copo de Chardonnay maltês e um peixe grelhado no “Zeri’s” e sinto que não me falta nada.          

  

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Monocromático – relato pessoalíssimo sobre um arquipélago mediterrânico




Chego triste (por motivos que mais vale não deixar escritos) e cansada, pela directa que decidira fazer com medo de perder o voo excessivamente matutino. A viagem de autocarro até ao hotel desilude: não fosse a harmonia assegurada pela uniformidade de ocre e azul e tudo seria ainda mais feio. Porquê este destino entre tantos outros possíveis?

Depois de arrastar, durante algum tempo, desorientada, a mala por St. Julians, encontro finalmente a entrada para o hotel. Grande demais, caro demais, famílias a mais e cortesia a menos. O quarto dava bem para três, cama king size, sea view cortada pelo campo de ténis, mas sem faltar à verdade. Vamos lá sacudir as amarguras e matar as saudades: sentir e cheirar o Mediterrâneo. Passo pela piscina – quantas criancinhas barulhentas – a caminho da private beach, feita de cimento ocre. A água do mar é uma delícia e o entardecer aniquila todo o mau humor. Descanso na chaise-longue confortável de hotel de cinco estrelas e perscruto o horizonte à espera de ver despontar um Corto Maltese redentor. Como o Corto se demora, decido ir jantar, há demasiadas horas que não como nada (claro que as sandes-pizza da Lufthansa não contam). Inquiro na conciergerie do hotel por um sítio simpático para petiscar alguma coisa, ainda que talvez não sejam bem horas de jantar – é imperioso fazer a escolha certa e terminar este dia, demasiado longo, num sítio simpático, a beber um belo copo de vinho – “Sale e Pepe”, em Porto Maso, um mapa, dois rabiscos. Será de mim, que estou carente, ou por aqui é tudo um bocado antipático e a despachar. Desço uma rua sem qualquer atractivo e começo logo a hesitar no caminho do mapa. Afinal, um casal simpático: “não é por aqui”, “é para cima, não tem nada que enganar”. “Porto Maso” é um lugar agradável: espanta-me ouvir distintamente a água do mar a bater nos barcos ancorados, apesar de todos os que por aqui se espalham a comer ou tomar um aperitivo. Mas, antes disso, uma experiência já familiar: apesar de haver pelo menos três mesas vagas, não me deixam sentar ao ar livre; sem reserva, só ali dentro. Para ter de levar com esse medonho ar condicionado, nem pensar. Desço mais alguns degraus e no “Hush” deixam-me escolher a mesa que quero. Um copo de vinho branco e uma empregada afável que me esclarece sobre o que, segundo ela vale a pena ver aqui em Malta: Valletta, Mdina, e Blue Lagoon, embora esta vá estar pejada de turistas; seis dias, chegam perfeitamente. O calor (tal como o álcool e a insónia) amansa qualquer mágoa – os sentimentos tornam-se menos vívidos, as memórias indefinidas, a dor bate mais devagar, compassadamente… Começo a pensar sobre o que poderei fazer amanhã e sinto-me afinal, bem, aqui. Passeio na marina silenciosa, desfaço o caminho de volta e posso agora prestar atenção às casas que despontam encantadoras entre os mostruários feiíssimos de comércio próprio do Verão em zonas costeiras. Quase me atrevo a perguntar aos idosos moradores – que mantêm a tradição de aproveitar a brisa do fim de dia sentados no pátio, a ler o jornal e a tertuliar com os vizinhos; os adolescentes estão demasiado ocupados a preparem-se para a embriaguez diária – se o nome que está escrito nas casas lhes pertence a eles mesmos ou a algum antepassado, mas afinal sou tímida e limito-me a aceitar com simpatia um sorriso de velhinha desdentada.

Mesmo antes de adormecer sinto-me, finalmente, no lugar onde mais gosto de estar – cheia de horas livres para explorar um território desconhecido...  

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

sentença



"Não sabia que a liberdade não é uma recompensa nem uma condecoração que se festeje com champagne. Nem, aliás, um presente, uma caixa de bombons para lamber os beiços. Oh!, não, é uma estopada, pelo contrário, e uma corrida de fundo, bem solitária, bem extenuante. Nada de champagne, nada de amigos que ergam a sua taça, olhando-nos com ternura. Sozinhos numa sala sombria, sozinhos no banco dos réus, perante os juízes, e sozinhos a decidir, perante nós mesmos ou perante o juízo dos outros. Ao cabo de toda a liberdade, há uma sentença; eis porque a liberdade é pesada de mais, sobretudo quando se sofre de febre, ou nos sentimos mal ou não amamos ninguém"

A. Camus, A Queda 

honestamente afável



"Se por acaso sou susceptível, tenho a susceptibilidade dos exigentes e afáveis, honestamente afáveis. E, se sou agressivo, é só a agressividade do muito amor. Eu não perdoo a ninguém a mediocridade, a estupidez e a vileza, a malignidade, a incultura, a suficiência, a intolerância (...)"


Jorge de Sena

domingo, 11 de agosto de 2013

desalinhados


 
 
Não nos adianta nada sermos muito inteligentes quando também somos muito sentimentais: acabamos sempre por nos desorientarmos...