quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Fotografar-te


Imagino que te encontro numa dessas ruas estreitas de Lisboa que roubam o fôlego na subida. Imagino que levo a minha máquina fotográfica e que, relutante, acedo em mostrar-te as fotografias que tirei durante a tarde: antecipo a alegria infantil pelas que te agradam e o desdém pelas que precisam de ser esclarecidas (uma fotografia não se explica, se tiver de ser justificada é porque não vale nada). Aguardo que me contes, de novo, onde se esconde a razão deste vício de descobrir um objecto de interesse, fixar nele o olho da lente e disparar um clique ligeiro, quase inaudível. Fotografar é ideal para quem tem fome de vida e uma necessidade essencial de solidão. Imagino depois que fugimos do frio – eu sou uma miúda dos trópicos, trago na pele o calor do sol, vim parar a este Inverno por engano – para um café pouco povoado, mas demasiado barulhento, à conta dos bêbedos que discutem, numa lenga-lenga ininteligível, com a garrafa vazia. Imagino ainda o desejo que guardamos, sossegado, dentro do corpo – tu do teu e eu do meu. Porque é proibido. E porque sabemos que não é isso que importa. O que importa é olharmo-nos demoradamente dentro dos olhos e reconhecermo-nos. Eu, o som mágico da chuva tropical a cair forte no chão da floresta, que trazes guardado em ti. E tu, a ânsia e a inquietude de turbilhão, que trago guardada em mim.

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