domingo, 17 de janeiro de 2010

complexo de culpa

"A Febre" sai do palco e vem cair-nos ao colo. Dá-nos, primeiro, uma cotovelada, para garantir que estamos despertos e atentos. Depois, fica ali, a mexer-se de um lado para o outro e a incomodar-nos. A arranhar-nos. A tirar-nos a paz de quem se julga do lado dos bons, ou do lado de fora, do lado de quem pensa que pode dormir de consciência sossegada porque não tem nada a ver com aquilo. Lamentamos o destino dos pobres, dos miseravelmente pobres, mas não há nada que possamos fazer, aquilo não tem nada a ver connosco. Engano nosso. O texto afaga-nos um pouco a cabeça apenas para nos apanhar com mais força com um murro fechado no meio do estomâgo. Aquilo tem a ver connosco, aquilo somos nós. Lamentar não muda nada, palavrear não muda nada,e sempre soubemos disso, mas, na verdade, não nos importamos muito, nunca nos importamos muito. Queremos é que aquilo fique longe de nós. Enquanto "sentimos muito", sossegados, do lado de cá.
"A Febre" incomoda porque nos faz sentir que os "maus" somos, afinal, todos nós.

"A Febre" é um texto do escritor e actor norte-americano, Wallace Shawn. Soberanamente interpretada por João Reis, esteve em cena, no teca, este fim-de-semana.




Esta fotografia foi tirada nas ruas de São Paulo. Eu estou sentada dentro de um jeep confortável, com ar condicionado e vidros semi-fumados. Ele está deitado na rua, exposto à indiscrição de todos os olhares. Lembro-me de ter hesitado em captar a imagem e de sentir pudor em invadir o repouso dele com a minha câmara. Acabo por escolher fotografá-lo: ele faz parte da cidade e eu quero uma reportagem completa. Ou ele garante à minha consciência que não me preocupo apenas em fotografar belezas e luxos, mas antes estou também atenta aos dramas e à miséria. Enquanto nós, dentro do carro, seguimos viagem e decidimos o restaurante onde vamos jantar nessa noite, ele fica guardado na memória digital...

3 comentários:

  1. Os moradores de rua são invisíveis aos olhares. São transparentes. Passa-se por eles normalmente com a mesma irrelevância que se passa pela porta fechada da loja na frente da qual dormem.
    [d.]

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  2. Os moradores de rua não são invisiveis, desculpa mas não concordo. Para mim são o resultado mais evidente do nosso fracasso enquanto sociedade, enquanto pessoas e enquanto o meu próprio "eu"...

    Como é triste...

    Ana

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  3. Também não acho que são invisíveis ao olhar.
    Muito pelo contrário: há uma história de vida que os levou até ali que nos intriga, que nos faz pensar e que tentamos adivinhar ...
    Por isso eles prendem o nosso olhar.(São os pais, irmãos ou filhos de alguém.
    Será que um dia podemos ser «nós»?


    Bj Grd!
    PS - Obrigada :) por nos fazeres pensar ...

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