domingo, 31 de janeiro de 2010

dis(a)tracção


Como é teu hábito, percorrias, distraído, os caminhos desta cidade, que é a nossa, quando tropeçaste e vieste cair dentro de mim. Não estou bem certa de que fosse apenas porque levavas a cabeça separada do corpo, a flutuar um pouco acima deste; duvidei logo quando percebi os teus olhos arredondarem-se atrás dos meus e adivinhei uma leve intenção maliciosa. O problema é que agora não sei o que fazer contigo. Sentas-te no meu estômago e torná-lo tão pequeno que se me vai o apetite. À noite entreténs-te a beliscar-me as pálpebras e ainda gostava de saber para onde foge o meu sono… Com frequência, sinto a pele estremecer, desorientada entre o frio e o calor; seguramente, és tu quem se colou debaixo dela e não se deixa ficar quieto. Como se isto não bastasse, tenho a certeza de que me andaste a brincar com a memória e a desarrumaste toda: esqueço-me de tudo e não me lembro senão de ti.

Um dia destes, volto àquele mesmo sítio onde a tua distracção se cruzou com a minha fraqueza. Na mesma fracção exacta de tempo… a ver se desfaço o enguiço…

3 comentários:

  1. Será que a fraqueza nos torna tão distraídos , que nos apanha completamente desprevenidos no nosso dia-a-dia.

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  2. Está tão bem escrito que emudeci... quantas vezes não queria também eu voltar aquele exacto local em que me perdi, para buscar a parte de mim que lá deixei... e seguir sem me lembrar que o outro existiu!!

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  3. Obrigada :)
    No começo, vamos atrás de emoção e aventura, mas depois, quando percebemos que andamos a correr atrás do rabo, sem sair do sítio, só queremos paz e sossego de volta...

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