quarta-feira, 7 de abril de 2010

aleatoriedade





Naquela tarde, tinha decidido ir ao teu encontro apenas para dizer-te que precisava de ti na minha vida, a maneira de ficares, que a escolhesses tu, satisfazer-me-ia uma qualquer, desde que não me excluísses do teu quinhão de espaço e de tempo neste mundo. Aceitaria a proposta que me fizesses, ainda que pouco razoável, contanto ficasse salvaguardada a regra de ouro: nunca aparecer sem anúncio prévio, confirmado com a devida antecedência. Enquanto percorria a pé os poucos quarteirões que separam a minha casa da tua, lembrei-me da Billie Holiday a cantar “life is sweet when we walk on the sunny side of the street” e atravessei a rua para o lado exposto ao sol. As montras felizes das pastelarias que estão situadas desse lado convidaram-me a entrar. Escolhi uma ao acaso, entrei e pedi um pastel de nata com canela. Espalhei um pouco de canela no pastel e, enquanto o fazia, ocorreu-me a memória de uma amiga que não suporta este cheiro. Por causa disso, fiquei com pena da canela e espalhei um pouco mais. Apercebi-me de que o «mais» era «demais» quando encontrei o olhar surpreso de um cliente ocasional no meu pastel submergido por uma pequena montanha de canela. Expliquei-lhe que me dava pena haver quem não suportasse o cheiro da canela. Recebi em troca aquela expressão (um misto de espanto e de resguardo), que guardamos para os loucos que ainda não perceberam que são loucos (nós sim, já percebemos que o são) e se julgam senhores da respectiva lucidez. E vai mais um que pensa que eu sou maluca, pensei, não sem algum desânimo, ao sair da pastelaria. Por isto, e só por causa disto, já não fui a tua casa naquela tarde. Voltei para trás, devagar, pelo caminho da sombra, conformada com a impossibilidade da tua presença.

4 comentários:

  1. Com pena da canela??! :-) Por esta não esperava... ela até pode existir, mas naquela altura trabalhava num sítio em que a empregada comprou um detergente de canela, pedia uma tiramissu e ele vinha com canela, pedia um simples panado e ele vinha com canela... coitada de mim, não??! A maluca aqui sou eu! :-)
    Beijos

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  2. Ah... e quem põe tanta canela nas natas... não gosta de natas, gosta de canela apenas e come natas para disfarçar!! ;-)) A canela corta todo e qualquer sabor!

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  3. Quanta raiva contra a canela! Vês porque a personagem tem pena :)

    O pastel é apenas um pretexto numa história que tenta mostrar duas coisas: 1) como as decisões humanas são tanats vezes aleatórias e irracionais,mesmo quando as julgamos revestidas de lógica e 2) como a mente (aparentemente) lúcida funciona de modo quase esquizofrénico. Gostava de ser capaz de desenvolver mais e melhor estes dois aspectos, quem sabe o futuro inclui esta possibilidade?
    Beijinhos

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  4. O exagero da canela colocado no pastel , representa também o exagero de alguns sentimentos que transbordam para o exterior sem que os que nos rodeiam o percebam.

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