quarta-feira, 15 de abril de 2009

um poema da destruição

(a fotografia é de uma obra de Günther Uecker, intitulada «Poesie der Destruktion». o texto é meu)

O ser humano é um poema da destruição. Precisa de maldade, de violência e de catástrofe. Precisa de espetar pregos na felicidade e fazê-la sangrar. Por algum motivo insondável, o ser humano não consegue suportar a tensão de uma felicidade tranquila, tem uma necessidade maldita de destruição. Ou destrói à sua volta, ou destrói-se a si próprio.

Frequentemente, ele expunha-me esta teoria, de maneiras diversas em variações diferentes sobre um mesmo tema. Eu, às vezes, fazia um esforço tímido para rebater os seus argumentos, mas na verdade, gostava de ouvi-lo falar. Mesmo que não percebesse o que ele tentava explicar-me, mesmo que nem me interessasse ou sequer prestasse atenção ao que ele dizia, adorava escutar o som daquela voz gasta pela vida e pelos cigarros. Seduzia-me o seu modo de arrastar as palavras como se estas o cansassem por serem incapazes de formular tudo o que ele pretendia transmitir. Fascinava-me o sotaque muito ligeiro, subtil, mas que ainda descobria a sua condição de estrangeiro, traído por uma ideologia que se esqueceu dele e o deixou ficar à porta, à espera.
Aproximei-me dele pela sua loucura e deixei-me ficar por comodidade. Eu era muito nova e ele fazia-me sentir importante. Tomava conta de mim e salvava-me da minha futilidade. Foi só muito tempo depois que percebi o que ele tentava explicar-me. Uma tarde em que, de um modo indesculpável, por tédio ou pura maldade, deixei que ele me encontrasse nua, com um outro dentro de mim, a quem eu murmurava as palavras que o "estrangeiro louco" me pedia sempre para lhe repetir.

"Café Paris" ou os lugares e as possibilidades


Quando chego a uma cidade nova (nem que seja para aí passar apenas um dia), há sempre um momento em que sinto uma necessidade imperiosa de parar num lugar, tomar um café, ler um livro sossegado e escrevinhar umas notas inquietas. Muitas são as vezes em que não consigo encontrar o sítio perfeito capaz de corresponder a esta necessidade (e lá tenho de me ajustar ao desconsolo do lugar). Na verdade, não foi fácil encontrar o Café Paris: não é um sítio evidente e de modo nenhum um «spot» para turistas. Depois de espreitar os «must see» do centro e de girar entre as marcas franchisadas que sempre nos fazem duvidar do lugar do mundo em que nos encontramos, quase sucumbi à facilidade monótona de entrar num Starbucks ou num Balzac (ou quem sabe um Cup & Cino) para tomar uma coisa, petiscar outra e aceitar a globalização pouco criativa das cadeias que, pelo facto de aparecerem em vários pontos de todas as cidades assumidamente cosmopolitas, se converteram em lugares sem identidade, quase não-lugares. Ora, o Café Paris é um lugar. E é um lugar perfeito. É certo que ele transporta um cheiro forte de Paris (uma Paris que já talvez nem exista e apenas corresponda ao meu imaginário preconceituoso) para o Norte da Alemanha. Além dos ícones evidentes – e até escusados, diga-se – (como o boneco torre Eiffel, as garrafas de champagne ou de água Perrier a decorar as estantes), há o cabedal verde do sofá que ocupa toda uma parede, há as pequenas mesas e cadeiras de madeira (que me permitem ressuscitar um Sartre e uma Simone, cada um ao lado do respectivo amante do momento), há a grade decorativa e o candeeiro Art Nouveau e há os garçons e as garçonnettes a desfilar impecáveis de laço preto e avental branco. Mas há também um balcão longo a lembrar o famoso quadro de Hopper (sem a figura solitária é certo), e há todo um cortejo de ocupantes a devolver-me a certeza de que o mundo ocidental mantém a sua diversidade e identidade. Enquanto saboreio o meu “plat du jour”, lembro-me de personagens que conheci no papel e penso em outras que gostaria de inventar. Agrada-me o erotismo de um lugar com história (fundado em 1882, inscrito na parede) e estórias. Agrada-me a sensação de acreditar que eu podia ser uma outra coisa qualquer e viver uma história diferente da que traço dia a dia. De repente, invade-me aquela saudade estranha do futuro e uma nostalgia imensa de épocas que nunca vivi e por isso nunca foram minhas.
O Café Paris é um lugar. E é um lugar que me consola. Tem o cheiro de outra nação, é certo, a invadir a cidade de Hamburgo. Mas esta não se deixa conquistar. Mantém-se firme na identidade dos seus habitantes que enchem o espaço de possibilidades. E às vezes é só disso, e apenas disso, que precisamos para podermos voltar tranquilos a nós próprios – do esboço de uma possibilidade.

sábado, 11 de abril de 2009

... e pelos meus também não



De qualquer modo, desejos de uma Páscoa Feliz. Aproveitem os feriados (com ou sem sol), para pecar ou para jejuar, conforme as respectivas preferências...

quarta-feira, 8 de abril de 2009

sol, preconceitos e diferenças culturais



À conta do sol, da simpatia e solicitude daqueles com quem me vou cruzando (a pôr em causa preconceitos antigos sobre o carácter frio e rude deste povo), das arcadas de estilo italiano e do vendedor de tapetes turco à janela quase esquecia que me encontro muitos quilómetros a Norte de casa. Quase. Não fossem alguns pequenos detalhes a evidenciar as diferenças culturais e a trazer de volta a lembrança do ponto geográfico que ocupo agora.


Quando cheguei ao instituto, depois de uma pequena espera, fui introduzida num gabinete onde uma funcionária simpática preencheu cuidadosamente a minha ficha. Depois voltei à recepção onde uma outra funcionária, menos simpática, procedeu a um registo e entregou-me um crachá de cor amarela com algumas advertências: deve usar sempre esta identificação dentro do instituto para que todos saibam qual é o seu estatuto, se perder o crachá paga 25 €, não pode em caso algum ceder esse crachá a alguém ou permitir que alguém entre consigo na biblioteca (como se algum dos meus amigos ou quem sabe algum louco que conhecesse pelas ruas se matasse por ir sentar o rabo numa cadeira a ler livros de Direito, bolas, eu chamo-lhe «profissão» e uso outros adjectivos para qualificar o trabalho diferentes de devoção). Dito isto, acrescentou: está aqui uma folha com as instruções sobre o que não lhe é permitido fazer na biblioteca, leia com atenção para evitar problemas. Entre outras coisas, proibe-se que seja levada comida ou bebida para dentro da biblioteca, com excepção de uma garrafa de água, que deve ser colocada no lixo, assim que a água tenha sido bebida (regra muito sensata para evitar pequenos cemitérios de garrafas de água em cima de cada mesa).


À hora em que o meu estomâgo avisou que não aguentava mais sem almoço tentei perceber qual seria o local para o efeito, mas não vi ninguém a dirigir-se para outro sítio que não fosse a respectiva secretária ou os corredores que conduzem à sabedoria empilhada em estantes. Só me tinha dado conta da existência de uma pequena cafeteria com duas máquinas automáticas uma de cafés, chás e afins e a segunda com chocolates e outras coisas igualmente incapazes de satisfazer a minha fome. Decidi, pois, dirigir-me a um funcionário, o diligente Mr. David. ""Há mais algum sítio para comer além da cafeteria, uma cantina ou algo assim?" perguntei delicada e ingenuamente. Ele olhou-me não sem algum espanto: "há a cafeteria que está lá para isso mesmo, para que os estudantes possam comer", respondeu. "Mas na cafeteria só há uma máquina com chocolates e outra com bebidas", insisti eu, já com receio de o ofender e de passar por uma louca portuguesa preguiçosa que quer fazer uma pausa para almoçar. "Ahh!", fez-se luz no cérebro germânico, "quer dizer um sítio onde possa comprar comida". Pois claro, como me expliquei tão mal, há que ser rigoroso: um sítio para comer e um sítio onde se compra comida são duas coisas distintas e eu demorei dois minutos e meio a perceber uma classificação tão básica.


segunda-feira, 6 de abril de 2009

you' d better treat me like a

Doll boy, you’d better treat me like a queen

I am sorry, doll boy,
But you are only my favourite toy.
I may share my bed with you
But never ever in my closet will there be a room for two.

You’d better do your best to please me
(do all you can to turn me on)
If you want to keep my company

’Cause you see, my doll boy,
I don’t need your love, your flowers or your tears
I was me before you came,
And after you’ve gone I’ll still be the same
I had my boredom, my interests, my friends, my needs
And I doubt there’s something new that you can teach me.

Poor doll boy,
You should have realized that you are a puppet in my hands,
And your strings are pulled at my command.
So, my doll, my boy,
Unless you treat me like a queen
There’ll come a day when you will wake up to find me sitting inside your brain, retailing it just as I please.


(as fotografias são de dois aspectos de um quadro de David Hockney chamado "Doll boy"; a conjugação e o texto são ideia minha)

"You have to be willing to get happy about nothing"
(Andy Warhol)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Rothenbaumchaussee, 34

Esta é a vista da minha janela pelos próximos 120 dias. Em vez do mar, prédios, em vez da luz do sol a insinuar-se segura de si desde as primeiras horas da manhã, árvores despidas. Mas, não sei bem porquê, desde que os meus pés cumprimentaram o chão de um espaço que só com muito boa vontade pode ser qualificado como confortável e o meu nariz sentiu um cheiro longe de fresco ou agradável, eu percebi que me ia sentir bem aqui.
No segundo dia, dois pássaros felizes vieram cumprimentar-me e no quarto um esquilo muito ruivo veio dar-me os bons dias.

E a Primavera concedeu-me o privilégio de chegar à cidade antes de mim e de já cá estar para me receber.