quarta-feira, 15 de abril de 2009

um poema da destruição

(a fotografia é de uma obra de Günther Uecker, intitulada «Poesie der Destruktion». o texto é meu)

O ser humano é um poema da destruição. Precisa de maldade, de violência e de catástrofe. Precisa de espetar pregos na felicidade e fazê-la sangrar. Por algum motivo insondável, o ser humano não consegue suportar a tensão de uma felicidade tranquila, tem uma necessidade maldita de destruição. Ou destrói à sua volta, ou destrói-se a si próprio.

Frequentemente, ele expunha-me esta teoria, de maneiras diversas em variações diferentes sobre um mesmo tema. Eu, às vezes, fazia um esforço tímido para rebater os seus argumentos, mas na verdade, gostava de ouvi-lo falar. Mesmo que não percebesse o que ele tentava explicar-me, mesmo que nem me interessasse ou sequer prestasse atenção ao que ele dizia, adorava escutar o som daquela voz gasta pela vida e pelos cigarros. Seduzia-me o seu modo de arrastar as palavras como se estas o cansassem por serem incapazes de formular tudo o que ele pretendia transmitir. Fascinava-me o sotaque muito ligeiro, subtil, mas que ainda descobria a sua condição de estrangeiro, traído por uma ideologia que se esqueceu dele e o deixou ficar à porta, à espera.
Aproximei-me dele pela sua loucura e deixei-me ficar por comodidade. Eu era muito nova e ele fazia-me sentir importante. Tomava conta de mim e salvava-me da minha futilidade. Foi só muito tempo depois que percebi o que ele tentava explicar-me. Uma tarde em que, de um modo indesculpável, por tédio ou pura maldade, deixei que ele me encontrasse nua, com um outro dentro de mim, a quem eu murmurava as palavras que o "estrangeiro louco" me pedia sempre para lhe repetir.

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