segunda-feira, 8 de junho de 2009

o quarto do silêncio


Queremos sulcar trilhos novos, mas quando nos afastamos do caminho a que os nossos pés se habituaram acabamos sempre por nos perder.
Por isso, voltei a este lugar, ao quarto do silêncio. Desliguei o som que me atordoava com a força de música electrónica demasiado próxima dos ouvidos e pedi às coisas do mundo que parassem de me gritar – eu não pertenço a lugar nenhum. E escolho ficar aqui, em silêncio. Se o tempo julgava que podia eleger por mim, enganou-se, eu já cá estou, cheguei primeiro.

1 comentário:

  1. «Surgiu uma encruzilhada.
    Aí viraram à direita. E seguiram.
    - Devemos estar a chegar - disse o homem.
    E continuaram.
    Árvores, campos, casas, pontes, serras, rios, fugiam para trás, escorregavam para longe.
    A mulher olhou inquieta em sua volta e disse:
    - Devemos estar enganados. Devemos ter vindo por um caminho errado.(...)
    - Não vejo outro caminho - disse o homem.
    E seguiram.
    Encontraram rios, campos, montes; atravessaram rios, campos, montes; perderam rios, campos, montes. (...)
    - Estamos a perder-nos cada vez mais - disse a mulher. (...)
    E seguiram pelo carreiro.
    Iam em silêncio sob o brilho escuro das estrelas, medindo cada gesto e cada passo.
    Mas de repente o corpo do homen oscilou, rolaram pequenas pedras. Ele gritou à mulher:
    - Segura-me!
    Mas já o ombro dele escorregava das mãos dela.(...)
    Ela estava sozinha, vestida de terror, agarrada ao chão em frente do vazio. (...)
    Estava estendida na terra (...)e começou a gritar como quem está perdido no meio dum sonho. (...) Seguiu de rasto pelo carreiro, tacteando o chão com as mãos à busca duma passagem por onde pudesse descer para o procurar (...). Mas não havia passagem.
    Então tentou descer pela própria vertente do abismo. (...)Mas os seus pés não encontravam nenhum apoio onde pudessem firmar-se.(...)
    - Tenho de voltar para o carreiro - pensou a mulher - e tenho de procurar mais adiante uma passagem.
    E, agarrada a ervas e raízes, içou-se para o carreiro.
    Mas o carreiro tinha desaparecido.
    Agora havia apenas um estreito rebordo onde ela não cabia (...)Aí ficou, de lado, com os pés um em frente do outro, com o lado direito do seu corpo colado à pedra da arriba e o lado esquerdo já banhado pela respiração fria e rouca do abismo. (...)
    Compreendia que agora era ela que ia cair no abismo. Viu que, quando as raízes se rompessem, não se poderia agarrar a nada, nem mesmo a si própria.
    Pois era ela própria o que ela agora ia perder. (...)
    Tentou ver através da escuridão. Mas só se via escuridão.
    Ela, porém, pensou:
    - Do outro lado do abismo está com certeza alguém.
    E começou a chamar.»

    Sophia de Mello Breyner Andresen, in «A Viagem - Contos Exemplares»

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