
Queremos sulcar trilhos novos, mas quando nos afastamos do caminho a que os nossos pés se habituaram acabamos sempre por nos perder.
Por isso, voltei a este lugar, ao quarto do silêncio. Desliguei o som que me atordoava com a força de música electrónica demasiado próxima dos ouvidos e pedi às coisas do mundo que parassem de me gritar – eu não pertenço a lugar nenhum. E escolho ficar aqui, em silêncio. Se o tempo julgava que podia eleger por mim, enganou-se, eu já cá estou, cheguei primeiro.
Por isso, voltei a este lugar, ao quarto do silêncio. Desliguei o som que me atordoava com a força de música electrónica demasiado próxima dos ouvidos e pedi às coisas do mundo que parassem de me gritar – eu não pertenço a lugar nenhum. E escolho ficar aqui, em silêncio. Se o tempo julgava que podia eleger por mim, enganou-se, eu já cá estou, cheguei primeiro.
«Surgiu uma encruzilhada.
ResponderEliminarAí viraram à direita. E seguiram.
- Devemos estar a chegar - disse o homem.
E continuaram.
Árvores, campos, casas, pontes, serras, rios, fugiam para trás, escorregavam para longe.
A mulher olhou inquieta em sua volta e disse:
- Devemos estar enganados. Devemos ter vindo por um caminho errado.(...)
- Não vejo outro caminho - disse o homem.
E seguiram.
Encontraram rios, campos, montes; atravessaram rios, campos, montes; perderam rios, campos, montes. (...)
- Estamos a perder-nos cada vez mais - disse a mulher. (...)
E seguiram pelo carreiro.
Iam em silêncio sob o brilho escuro das estrelas, medindo cada gesto e cada passo.
Mas de repente o corpo do homen oscilou, rolaram pequenas pedras. Ele gritou à mulher:
- Segura-me!
Mas já o ombro dele escorregava das mãos dela.(...)
Ela estava sozinha, vestida de terror, agarrada ao chão em frente do vazio. (...)
Estava estendida na terra (...)e começou a gritar como quem está perdido no meio dum sonho. (...) Seguiu de rasto pelo carreiro, tacteando o chão com as mãos à busca duma passagem por onde pudesse descer para o procurar (...). Mas não havia passagem.
Então tentou descer pela própria vertente do abismo. (...)Mas os seus pés não encontravam nenhum apoio onde pudessem firmar-se.(...)
- Tenho de voltar para o carreiro - pensou a mulher - e tenho de procurar mais adiante uma passagem.
E, agarrada a ervas e raízes, içou-se para o carreiro.
Mas o carreiro tinha desaparecido.
Agora havia apenas um estreito rebordo onde ela não cabia (...)Aí ficou, de lado, com os pés um em frente do outro, com o lado direito do seu corpo colado à pedra da arriba e o lado esquerdo já banhado pela respiração fria e rouca do abismo. (...)
Compreendia que agora era ela que ia cair no abismo. Viu que, quando as raízes se rompessem, não se poderia agarrar a nada, nem mesmo a si própria.
Pois era ela própria o que ela agora ia perder. (...)
Tentou ver através da escuridão. Mas só se via escuridão.
Ela, porém, pensou:
- Do outro lado do abismo está com certeza alguém.
E começou a chamar.»
Sophia de Mello Breyner Andresen, in «A Viagem - Contos Exemplares»