quinta-feira, 4 de junho de 2009

uma cidade nova


Descobrir uma cidade nova é como conhecer um amante novo. No primeiro encontro, há um misto de atracção e desconfiança pelo território inexplorado. O sangue corre fervilhante a despertar uma energia e atenção renovada. Brevemente, os pés dão por si a definir satisfeitos caminhos novos, sem sentirem o cansaço. O mapa na mão é só um adereço porque não importa se nos perdermos - ao virar a esquina há sempre algo novo à espera de ser descoberto. Não importa se a chuva cai fria e húmida ou se o sol escalda e amolece. Não importa se é preciso esperar, voltar atrás porque o caminho está errado, demorar meia hora a encontrar o que estava mesmo ali ao lado. Os caminhos ínvios não aborrecem e nem deprimem - são um desafio a conquistar. O dia ou a semana de trabalho é só um intervalo incontornável até ao próximo encontro. Fazem-se planos, definem-se projectos e possibilidades. Os problemas não deixam a marca da aflição ou desconforto; tudo é ultrapassável porque a cidade está lá, à espera de ser desvendada.
Passado o tempo dos encontros felizes e entusiásticos, ela continua lá à espera... E, por isso, deixámo-la esperar, até ao dia ou à semana seguinte, e escolhemos trabalhar, porque o trabalho está atrasado, e escolhemos prolongar o encontro com os amigos, porque a conversa está boa e lá fora a temperatura não convida à aventura. Depois, começamos a ser mais exigentes (demasiado?), e a chuva basta para estragar o dia, e o metro que avaria tem a proporção do desastre, e a rua errada faz-nos barafustar dez minutos sem pausa para a respiração.
Chegado este momento, está preparado o quadro para que o tédio se aproxime, em passos vagarosos, mas determinados, a transportar o sonho para estações de comboios e a desenhar suspiros por uma cidade nova, mais calma ou mais turbulenta, mas nova. À espera de ser desvendada...

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