terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

(espera-se que não se desespere)

(centro franco-moçambicano, Maputo, 2008)
o tempo suspenso. a falta de autonomia. o espaço, lentamente, a tornar-se mais pequeno. levantar, sentar, levantar outra vez. girar em torno de si próprio, sem sair do sítio. agarrar as coisas em volta e ficar a vê-las escorrer, como areia fina, por entre os dedos. levantar, sentar, levantar outra vez. preparar-se para o pior. preparar-se para o melhor. preparar-se para o que der e vier. enlouquecer antes de confirmar que se estava bem preparado. levantar, sentar, levantar outra vez. estar à espera…

…à espera

que as espigas dourem;
que a sorte vire;
que a chuva passe;
que o telefone toque;
que o correio chegue;
que o Verão comece;
que a dor da perda se desfaça;
que o mundo entenda;
que o amor aconteça;
que as coisas façam sentido;
que o dia acabe;
que o sono venha;
que a luz da manhã seque as lágrimas à lua;
que a festa comece;
que ninguém descubra;
(que o imbecil sentado ali em frente se cale de uma vez);
que a festa termine;
que o telefone toque (se eu contar até 50; se eu não pensar mais nisso);
que o correio chegue;
que a campainha soe;
que a dieta resulte;
que o táxi nos leve para casa;
que o sabor da vingança não envenene a alma;
que o telefone toque (se eu sair da sala; se o puser em silêncio)
que nos dêem uma segunda oportunidade;
que tudo corra pelo melhor…

…à espera
que alguém nos salve;
que a morte chegue.


3 comentários:

  1. Engraçado como «o pensamento mágico» pode estar em toda a parte :

    se eu contar até 50;
    se eu não pensar mais nisso
    se eu sair da sala;
    se o puser em silêncio ...

    Bj grd
    PS - Adorei!!!

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  2. Pois é, nem me tinha apercebido disso... Mas é tão frequente esta actividade interior pateta em torno do desejo de receber uma certa chamada. Há um texto muito divertido da Dorothy Parker sobre esta vontade de que o telefone toque.
    Beijinhos e obrigada pelo comentário

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