domingo, 28 de fevereiro de 2010

um rio que também não era nosso


No fim do jantar, ele servia-se de vinho uma vez mais, girava o copo de pé alto, entre os dedos, erguia-o um pouco, ao nível dos olhos, e proclamava solene: “como forma de vida, eu proponho o nomadismo – o antídoto perfeito contra o tédio!” Eu sorria, tilintava um brinde a firmar a aceitação da proposta e deixava o meu olhar demorar-se na beleza perfeita daquelas mãos de dedos longos que, dali a pouco, haviam de segurar-me a mim, e depois de novo a um copo de pé alto...
Jantei muitas vezes naquela casa de janelas grandes, debruçadas sobre o rio. Nas noites mais quentes, abríamos as janelas e deixávamos o rio correr pela sala. Amávamos aquele rio porque nos lembrava como tudo dura apenas um instante, como as alegrias e as tristezas fluem, suavemente, para lugar nenhum e não adianta correr atrás delas. Só as memórias nos pertencem, tudo o resto passa e nunca é, verdadeiramente, nosso. Passávamos horas a conversar, inventando destinos de nómadas, ou, em silêncio, apenas a olhar para o rio. Ele bebia muito, demasiado até, mas nele tudo era, na verdade, excessivo. Queixava-se sempre de que devíamos ter comprado mais vinho para o jantar, mas depois punha um disco a tocar e esquecia-se disso. Dizia que a música (e não o vinho) lhe permitia distanciar-se do mundo e consertar um pouco uma alma em desalinho.
Nunca nos tornámos nómadas – pouco viajávamos, aliás –, mas visitámos o mundo todo, levados pela corrente do rio, que enchia a sala, e pelas carícias do vinho que servíamos, sempre abundante, em copos de pé alto.

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