segunda-feira, 23 de maio de 2011

Helena



Quando Helena nasceu, todos admiravam o espanto de dois enormes olhos azuis. E mais não havia então a dizer: um recém-nascido, igual a tantos outros na pele engelhada e nas goelas estridentes, que a insinceridade dos amigos da mãe assemelhava a ela e a cortesia da família do pai igualava a ele. Da infância pacífica de Helena também não se faz história. As habituais esmurradelas nos joelhos, festas de aniversário com velas coloridas, algumas vaidades e muitas chatices com os trabalhos para casa.
A história de Helena insinua-se apenas na adolescência quando uma interessante mistura do atrevimento polaco (herdado do pai) e do falso pudor e melancolia portuguesas (no sangue da mãe) despertaram a atenção do sexo oposto.
Helena era enigmática para muitos e quase louca para todos. Vivia obcecada com as ligações invisíveis entre as coisas, aquilo que estava lá mas não se percebia de imediato. Jogava com o mundo e com os outros aquela brincadeira de crianças de descortinar coisas e animais no formato das nuvens. Quando conhecia alguém novo, não descansava até descobrir que parte daquele ser não se integrava no mundo a que pertencia. Frequentemente acusada de excessivo narcisismo, retorquia com serena incompreensão: e o que mais podemos fazer se não olhar o mundo com os nossos próprios olhos e pensá-lo com as nossas próprias ideias...

flânerie #3



"por mais que eu ande
nada em mim imagina
o que é que menina
tão pequena está fazendo
numa cidade tão grande
"



(in "O ex-estranho", Paulo Leminsky)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"simpatia é quase amor"



- Oi moça, hesita não, fica aqui, esse é o melhor ponto da praia! Porque é que acha que é aqui que eu estou? (cariocas são directos)
Eu caminhava sem sentido ou direcção, fascinada com a explosão de espuma que o mar («de ressaca», como se diz por estas bandas) deixava a estremecer no ar de cada vez que embatia com raiva na areia e com a beleza vibrante de uma inigualável mistura de verde azul e dourado. Caminhar sem destino não é andar à procura ou estar perdido, mas a diferença nem todos a entendem e estava demasiado calor para explicá-la a um desconhecido de pele morena e sorriso de Verão. Fiquei naquele mesmo sítio; estendi a toalha e instalei-me.
- Se precisar de alguma coisa – água de coco; suco; cadeira – é só pedir. Se for preciso eu vou mesmo lá em casa e trago o meu sofá da sala p’ra você… (cariocas são bacanas)
Respondi, divertida, com um sorriso aberto. Inspeccionei o mar e a força das vagas, medi a distância e decidi subir um pouco a toalha na extensão de areia.
- Não se preocupa não moça, o mar não vai chegar aqui; pode ler seu livro sossegada, eu estou de olho em você (cariocas são espertos).
- Agora eu vou jogar futevólei, estão me chamando, mas eu estou de olho em você, qualquer coisa é só chamar.
Foi-se e não voltou aquele exemplar de criatura rara que vive quase nua pela praia a beber água de coco e a exibir um corpo bem torneado em desportos aqui mesmo germinados e praticados desde o tempo de seus avós.
Impossível não simpatizar imediatamente com a cidade e os seus habitantes. Onde mais esta energia para festa, esta alegria de saber viver? Que ideia ou problema bafiento pode competir com um dia assim de sol omnisciente? Neste lugar, que a geografia fez maravilhoso, o Verão não marca apenas uma saison - dura o ano inteiro, sem princípio nem fim - é uma maneira de ser. Democraticamente ao alcance de todos os que cá vivem e de todos os que por cá passam.
Deambulo da calçada para o coração de Ipanema, empenhada em refazer os passos de poetas e de músicos destes e de outros tempos e esperançada em cruzar-me com a carne e os ossos de Chico ou Caetano ou com o espírito de Tom e de Vinícius. Lembro-me outra vez da canção, uma das mais famosas do mundo, e de como a beleza é, de facto, redentora.
Observar. Caminhar. Deixar que seja o acaso, e não o mapa, a levar-nos de encontro ao que procurávamos ou ao que já estava ali à nossa espera. Escondo-me entre os que passam e confundem-me com uma verdadeira carioca em perguntas que às vezes já sou capaz de responder: “é por ali, duas quadras, à direita”, com um sotaque mal disfarçado a deixar a dúvida. Espero que o sinal de peões se ilumine no verde e sou, afinal, desmascarada. Os nativos precipitam-se para o meio da rua sem medo dos automóveis que também amolecem sob o calor e nem sequer protestam em buzinadelas desagradáveis(cariocas não gostam de sinal fechado).
Deixo-me suspender até ao Pão de Açúcar, abafada no meio de um típico grupo excitado e infantilizado de turistas, de lenço amarelo. Pensar que um louco sugeriu em tempos idos deitá-lo abaixo para melhor deixar respirar a cidade e só uma mudança de governo impediu que se fosse mais longe, concretizando a medida. Imagine-se a cidade sem o seu morro mais famoso! Sento-me num banco frente à praia vermelha a reflectir sobre um tal disparate e, certamente por sugestão do parque militar aí ao lado, a imaginar-me uma donzela tomada pela melancolia de uma espera infinda (que se basta a si própria sem nunca se esgotar), pelo meu marinheiro que não regressa. Um curto passeio distraído por entre a amistosa arquitectura da Urca e prossigo em direcção ao famoso Aterro, num ónibus solícito que me faz sair na paragem desejada.
Subo a Santa Teresa de “bondinho” entre os turistas bem-comportados que pagam bilhete e esperam obedientes na estação. Abuso da feijoada e da cachaça e desço de novo em direcção à Lapa, ainda mais feliz e menos temerosa. No caminho, encontro as memórias de uma casa em ruínas e uns degraus coloridos, cheios do carácter e da boa vontade de alguém de nome Selarón. Lancho na confeitaria Colombo (mais uma turista, porque não) e deixo-me, inapelavelmente, atrair por todas as livrarias que me encontram. Adentro-me nas ruas do centro, outra vez sem sentido ou direcção…
A cidade é desconcertante – aqui seduz-nos, ali causa-nos repulsa. Aqui sufoca-nos, ali enche-nos os pulmões de ar. Cativante e agreste. Bela e o seu monstro.
Quando dou por mim o caminho está feito. E a simpatia é já amor.


("simpatia é quase amor" é o nome de um bloco de Carnaval de Ipanema)
(há referências a "Cariocas" de Adriana Calcanhoto)





sexta-feira, 22 de abril de 2011

desabafo #2

..."and it´s looking like you better do what they say
those monkeys uptown
[...] everybody owes something to everybody else"...


(Sam Bean para Iron & Wine, "Monkeys Uptown")

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Preciso de beijar-te! (agradeço o envio de instruções sobre como resolver este problema)



Há um beijo nosso em cada rua desta cidade. Há um beijo tímido no bar onde te levei a primeira vez (e que é o meu preferido por filtrar a quantidade perfeita de luz através dos quadrados das janelas). Há vários beijos cá fora, no despudor desatado pelo álcool e pelo desejo. Há beijos pornográficos no vão das escadas do parque subterrâneo. Há beijos sentidos nas esperas dos semáforos. Há beijos apressados nas corridas para o teatro. Há beijos melancólicos nas varandas do fim da tarde. Há beijos frios nas despedidas amuadas. Há um beijo terno no banco de madeira no meio da praça, a imitar os que lá se sentam, à espera que a vida volte ou acabe de uma vez. Há beijos que sabem à cerveja e aos amendoins da esplanada junto ao mar e ao sal das lágrimas que chegam sempre, demasiado breve. Há um beijo nosso dentro dos lençóis, na água do banho, no quiosque dos jornais, na mesa do café, no mercado do peixe. Há o sabor da tua boca em cada caminho da cidade que desfaço.
Bem sei que o amor está saturado que falem sobre ele ou que o usem como justificação para o inexplicável. O amor é um cliché. Está retalhado, desgastado, esventrado por tanta definição, mais ou menos tola, excêntrica ou literária que criaram para ele. Já foi dito que é uma “coisa parva”, uma “perdição”, uma droga, “um lugar estranho”, que é terrível, “um orgulho a mais, outra vaidade”, que não dura para sempre, mas apenas três anos. Já se cantou como seria se fosse um vestido vermelho. Já se imortalizou que é fogo (que, quando arde, não pode deixar de se ver), que é ferida e dor (que dói e que se sente). Já foi inventado em “quarto de hotel com carácter de urgência”. Já se escreveu que é de pé que se ama, “nas ruas, entre o povo”. E também que “o amor não cabe num poema”, porque “é maior do que as palavras”. Já se contaram histórias sobre um clandestino alguém, que morreu de tanto amar.

Mas o amor podia muito bem ser apenas isto: a noite inteira e as ruas de uma cidade qualquer.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

"a música do nosso tempo"


Confesso que me sinto bastante frustrada quando ouço os meus amigos animarem-se eufóricos como por nada mais à volta de um bar “fantástico que passa só as músicas do nosso tempo”. Como se nos fosse dado apenas viver verdadeiramente num período delimitado de tempo: aquele entre os últimos anos de faculdade e os primeiros anos de trabalho em que os pais já não mandam em nós (apesar de a maioria continuar a depender deles para tudo) e o mundo está apenas à espera de nos sentir chegar porque pessoas assim inteligentes e especiais, como todos acreditávamos ser, merecem com certeza um lugar de destaque, acima da multidão de insectos indiferenciados.
Às vezes, cometo a imprudência de ir atrás do bar fantáaastico e das músicas do nOSSo tempo, e aí, à frustração acresce uma agonia irritada perante tantos que continuam a pensar que vestir bem é continuar a usar o mesmo estilo de camisas fora dos jeans, pois claro, daquelas marcas em forma de animais (nem sei o que detesto mais se o cavalinho nervoso se aquele estúpido crocodilo sorridente) e tantas que se divertiram imeeeenso só porque beberam um copo e meio e dançaram o tempo todo com as mãozitas acima da cabeça. Antecipo angustiada que a qualquer momento juntem todos os casacos e carteiras num círculo bem protegido e desatem a dançar à volta dele...
Talvez a falha seja minha: não me lembro de ter sentido esse auge de felicidade adolescente ou de jovem adulto descomprometido (fui sempre ansiosa e preocupada). Ou talvez a vida tenha continuado a oferecer-me momentos de felicidade adolescente. Ou, simplesmente, eu não seja saudosista. Ou ainda tenha uma apetência superior à média por novidade. Seja como for, gosto sobretudo de ir a bares que passam as músicas de hoje, o meu tempo. E é um prazer sempre renovado o de descobrir uma sonoridade nova e perguntar a um DJ, nem sempre solícito: “quem são estes”, “nunca tinha ouvido isto antes” para depois correr ao youtube ou à fnac para ouvir melhor e descobrir mais.
O nosso tempo não passou; está aí, à espera de ser agarrado. Por isso, vamos lá: apaixonar-nos outra vez como se fôssemos adolescentes, sem pensar se vai ou não valer a pena; usar t-shirts roxas ou cor de laranjas, sem vergonha; comprar ipods e substituir nos ouvidos james e inxs por the national e arcade fire ou Interpol; mudar de emprego se “não se vive satisfeito”; esquecer aquelas histórias tãao divertidas do passado e construir novas que nos dêem vontade de sair em grupo outra vez; ignorar quem estende aquele dedo que classifica e reduz: “tu antes não eras assim, mudaste muito”. Pois mudar muda-se sempre, para melhor, e “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.
Coloquemos pois os “fabulosos anos oitenta” na prateleira a que pertencem: a das coisas passadas. Nos anos oitenta, a união de facto não estava legalizada; não existiam “low costs”, nem telemóveis; não podíamos comprar moda a preço de saldo na H&M e usávamos uns chumaços horríveis, regra geral emparelhados com um calçado de péssimo gosto. Sentemo-nos depois a ouvir o mar desvendar as promessas que traz guardadas para nós. E brindemos ao som de MGMT e Zola Jesus. O Prince há-de perdoar-nos: a chuva púrpura já só molha-tolos.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Quem tem medo do escuro?

















- Apaga as luzes! Apaga as luzes, por favor! Não ouves? Que diabo, porque nunca fazes aquilo que te peço? É pela inércia ou é porque sou eu quem o pede? Vá lá, apaga as luzes…
Não entendes? Às escuras, não há sombras nem reflexos; nada te persegue e aquele triste amedrontado com quem te cruzas todos os dias com ar de espanto não te responde “tu és eu”. Às escuras não há corpo, só desejo. Às escuras, o que não soujáfuinãovou ser… não está lá. Às escuras não te perco e o medo que sinto não o vejo. Às escuras, o tempo não existe e tudo é ainda possível…
Apaga as luzes! Apaga as luzes, por favor!
...Desculpa, esqueci-me que já não vives aqui.