E o que é que eu faço quando me sinto cansada, saturada, desanimada, frustrada, desconsolada, sufocada e saturada (sim, duas vezes saturada)?
Não faço nada. Sento o rabo na cadeira, ligo o computador e continuo a trabalhar.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
«Fugit Amor»
(escultura de Rodin, museu Rodin, Paris)Algumas vezes, era eu quem tentava agarrá-lo. Sentia-o próximo, ao alcance de duas mãos que precisava apenas de estender para fazê-lo meu. Mas quando finalmente o tocava, o Amor contorcia-se e eu ficava a vê-lo escorregar-me por entre os dedos.
Outras vezes, era o Amor quem estava lá, à minha espera, e era eu quem, num volteio, escapava apressada para outro lugar.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Vasco, p(o)lido e valente?

Vasco Pulido Valente é, sem dúvida, um homem culto e um cronista hábil e arguto. Leio, por isso, com elevada frequência e interesse as crónicas publicadas na última página do jornal Público. No Domingo passado, surpreendi-me, porém, com o conteúdo do texto sobre “o futuro do PSD”. De teor que se me afigura ofensivo, a crónica naufraga no lugar-comum. Afirmar-se que Cavaco Silva deixou o partido acéfalo ou policéfalo já foi dito por vários e pelo próprio em outras ocasiões, ou seja, não traz nada de novo e já não tem qualquer actualidade política – não interessa a ninguém. A falta de originalidade seria, porém, recebida com a maior tolerância (o momento político de ressaca dos resultados das eleições legislativas justifica-o, com certeza), não fosse o teor claramente ofensivo com que se refere aos visados. Uns já estão mortos e enterrados (a actual líder é, vá lá, apenas um espécime sob o perigo de extinção), um outro é “uma nulidade enfatuada” e outro ainda dotado apenas de uma “retórica brumosa”, mas sem qualquer qualidade política. Estranhamente, não há sequer uma palavra sobre o vice-presidente do partido: não é digno delas ou feneciam os atributos depreciativos para o designar? O pior está ainda, quanto a mim, em imputar características aos putativos candidatos a líder pela boca de outrem. Não é Vasco Pulido Valente que pensa de Passos Coelho ser este “um Sócrates de segunda”. Não, Manuela Ferreira Leite é que acha que ele é ou diz-se que ela acha que ele é. Sendo certo que não se trata de uma peça jornalística, obrigada a pagar o tributo da isenção e da seriedade das fontes, mas apenas de um artigo de opinião, não é, definitivamente, curial que se lance mão de insultos e muito menos de uma voz sombra de insulto. Criticar, chamar a atenção para o que vai mal por terras lusas (e lá fora) é sempre útil e bem-vindo, exprimir livremente uma opinião sobre uma qualquer matéria também, mas dizer mal só porque sim, já não. Até para Vasco Pulido Valente foi demais. Caiu no engodo de todos os “independentes da própria independência” (expressão recentemente utilizada pelo maestro Vitorino em entrevista televisiva) que disparam à esquerda e à direita: nadam numa excessiva arrogância e vêm morrer à praia do lugar-comum.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
viajar

"Afinal a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida (...)
Quanto mais eu sinta, quanto mais eu me sinta como várias pessoas.
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento,
Estiver, viver, sentir, for.
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora. (...)"
(Álvaro de Campos, Poesia)
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
os dias que passam... correm
(Saatchi - Londres)Sinto que os dias passam rápidos demais e que eu não os consigo agarrar. Vejo-os correr, velozes, à minha frente. Eu sigo-os aos tropeções. Eles voltam-se, de vez em quando, saltitantes, dirigem-me um sorriso zombeteiro e continuam a correr. Estendo os braços e tento pará-los, mas não sou capaz. Têm umas perninhas pequenas, mas correm que se fartam, os danados.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
teorias sobre as cores #7 (o desabafo)
(aspecto de uma obra patente na exposição "Serralves 2009: a colecção")Através da janela do café que tínhamos escolhido para o nosso encontro, vi-a aproximar-se de mim com o andar elegante e cheio de segurança que tão bem lhe conhecia. Invejei, como sempre, a sensualidade com que flutuava em cima de uns saltos que me teriam feito tropeçar ao segundo passo. Inconscientemente, dei por mim, mais uma vez, a encolher-me no desleixo de quem acredita ter coisas bem mais importantes com o que se preocupar. Da maquilhagem perfeita e do cabelo cuidado, os meus olhos desceram até à mão esquerda estendida em desalento ao longo da elegância do vestido. Vinha aberta, exposta, pintada de vermelho. Percebi, de imediato, pelo modo como aquela mão se abria num vermelho-sangue, que me escolhera, nessa tarde, para desabafar o tumulto interior e pensei, não sem alguma surpresa, que até aí ela nunca me tinha contado nada de verdadeiramente íntimo sobre a sua vida. Aguardei, expectante, sem lhe perguntar porque razão enfeitara o rosto com um sorriso tão postiço. O que me contou não seria surpresa nenhuma, não fosse ser ela a vivê-lo e a contar-mo. Tinha saído de casa nesse dia de manhã bem cedo com uma mala pequena e até àquela hora do fim da tarde não fizera mais do que conduzir desorientada, sem destino. O resto da história é lugar-comum: o marido envolvia-se frequentemente com outras mulheres e ela não aguentava mais olhar para o lado e fingir que não percebia. Pela sua parte, e ainda que já o tivesse pensado muitas vezes, era incapaz de o enganar. Um misto de culpa e de vergonha bloqueava-a e fazia-a retroceder, no último momento.
O desabafo alongou-se do fim da tarde para a noite e depois pela madrugada dentro. Era tarde e eu precisava de voltar para casa, mas cedi-lhe, solícita e paciente, os meus ouvidos. Depois, ofereci-lhe a minha amizade e emprestei-lhe a alegria e a segurança da minha independência. Durante alguns dias, manteve-se muito próxima, mas depois deixei de vê-la durante um período de tempo longo. Quando voltei a encontrá-la, ao lado do mesmo marido, trazia a mesma elegância de sempre, embrulhada num novo sorriso postiço. O braço esquerdo estendia-se ao longo de um vestido novo, mas terminava numa mão fechada, semi-escondida atrás das costas. Cumprimentou-me alegre e tagarelou excitada sobre a última viagem de férias que tinham feito. O marido acenava de quando em quando um gesto afirmativo, mas mantinha um olhar alheado, como se nada daquilo lhe dissesse respeito. Depois de se despedirem, fiquei ainda a vê-la afastar-se e a cobiçar-lhe a elegância dos saltos altos. Distraída, a mão esquerda abriu-se então por um instante. Tive a certeza de que a vi tão pintada de amarelo como o sorriso, mas agora que penso melhor nisso, talvez tivesse sido apenas uma ilusão criada pela luz intensa do meio-dia.
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