terça-feira, 29 de dezembro de 2009

sobre o casamento homossexual


Claro que todas as questões importantes para a sociedade devem ser objecto de intenso e aturado debate e todos os argumentos devem ser ouvidos e considerados. Mas, às vezes (muitas vezes), não me apetece nada ser uma boa ouvinte e, por isso, fica aqui registado que me irrita sobremaneira o sentimento de "ofensa" da Igreja Católica. Sabem que não é de casamento católico, mas sim civil, que se cuida, não sabem? Mais ainda, arrelia-me que se alegue pretenderem apenas os homossexuais aceder aos benefícios concedidos pelo Estado às famílias. Acaso um par heterossexual se casa apenas para aceder a tais benefícios? Se o casamento fosse sociológica e legalmente encarado como uma convenção destinada a servir interesses políticos e sociais até se podiam aceitar tais argumentos, mas julgo que, por regra, tal contrato se fundamenta em amor ou em sentimentos que se lhe abeiram.
Com surpresa, ouvi, recentemente, defender-se a inconstitucionalidade do casamento homossexual. E eu que, dentro do quadro jurídico onde por destino me vai cabendo navegar, estava crente da solução diametralmente oposta de que proibir ou dificultar tal união é que poderia ser considerado inconstitucional.
As sociedades evoluem. Hoje conhecemos a família com uma determinada configuração; porque não abrir espaço para que esta venha a assumir, no futuro, outras diferentes configurações? Porque temos sempre tanto medo da mudança?

jogo de espelhos



Um dia, vamos ter de parar de correr e de brincar com a vida. Vamos ser forçados a deter-nos diante do espelho e a deixar que a mirada se prolongue naquela figura, não completamente conhecida, que nos observa do lado de lá. Vamos ter de encarar as memórias desmaquilhadas, medir as rugas e a sombra escura que se esconde debaixo dos olhos, e decidir sobre o valor e o sentido do que fizemos até aqui. Como auxílio, podemos, em equilíbrio incerto, segurar numa mão, já mais cinzento do que vermelho-vivo, um coração e as amarguras que o picam e, na outra, um relance de sonhos impossíveis e uma centelha de ilusão.

Diz-se que a alma pesa apenas 21 gramas. Se a ilusão não tem peso e nem medida, qual o valor em quilogramas da amargura?

domingo, 27 de dezembro de 2009

um segredo bem guardado

(escultura de Rodin, Museu Rodin, Paris)

- keep it a secret

sábado, 26 de dezembro de 2009

objectivos por alcançar

(fotografia tirada no museu de arte contemporânea em São Paulo)

Com o passar dos anos, ele aprendeu que a felicidade é apenas uma miragem; que depois de chegar até ali, depois de atingir aquele ponto acolá mais adiante, depois de contornar a duna, depois de percorrer mais algumas centenas de metros, evitando ser picado por escorpiões - não lhe será ainda concedido beber a felicidade. Esta vai estar sempre um pouco mais além, um pouco mais para a direita ou para a esquerda, ou talvez em um ponto distante atrás das costas, mas nunca aqui, no lugar que ocupa. Com o passar dos anos, ele aprendeu que a tristeza não tem cura porque não é uma doença, é um modo de ser. Com o passar dos anos, ele aprendeu ainda que podia muito bem ser outra coisa qualquer, ter uma escada diferente para subir ou um deserto menos árido onde caminhar, que tal não faria qualquer diferença. Por isso, observa atentamente a escada e mede o esforço e o sacrifício necessários para a subir, do mesmo passo que intenta reunir a dose bastante de ilusão para encetar a escalada. O problema dele é conhecer desde já que a seguir a esta escada vai encontrar outra, e depois outra, e depois ainda mais outra - não as vê, mas adivinha que estão lá. Claro que ele sabe também que é imperioso subir esta escada, que ficar na base é igual a demitir-se da vida e, pelo menos para já, não é isso que deseja...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

(a)normalidades

rapariga 1: Naquela direcção ficava a casa de um antigo namorado meu, lembras-te?
rapariga 2: Sim, lembro-me, um que era um bocadito anormal (riso)...
rapariga 1: Não muito mais do que os outros namorados que eu tive (mais riso). Todos com o seu quê de anormalidade bastante desenvolvido... Se calhar isso também não diz muito sobre mim: é que o denominador comum sou eu e não eles.
rapariga 2: Há tantos anormais que a probabilidade de se ter um relacionamento com pelo menos dois ou três por vida é extremamente elevada!
rapariga 1: Bom, então acho que o próximo vai ser normal (outra vez riso); é que eu já mais do que preenchi a minha quota.
rapariga 2: Infelizmente, não funciona assim. A probabilidade de continuares a encontrar anormais é extremamente elevada. O juízo, perigosamente subjectivo, continua a ser o teu. Se calhar para eles tu também eras anormal.
rapariga 1: Achas que eu não sou normal?
rapariga 2: Não és, seguramente, nenhuma louca que preencha os vários índices do catálogo de uma doença clinicamente identificada, mas eu encontro em ti várias coisas que não considero normais e se calhar o mesmo acontece contigo relativamente a mim. Por exemplo, para muitas pessoas é uma anormalidade assistir a uma peça de teatro que dure cinco horas. Tanto quanto para mim é uma aberração que alguém gaste tempo a assistir ao "ídolos" e pior que afirme fazê-lo porque ao Domingo à noite não há nada melhor para fazer. O que é um comportamento normal, aquele que a maioria segue? No jantar onde estávamos quatro de entre seis pessoas assistem com frequência ao "ídolos" ao Domingo à noite e apenas uma vai ao teatro com frequência; concluímos então que assistir ao programa televisivo é que é normal. Mas se nos inserirmos em outro grupo de pessoas que nem sequer conheçam ou só remotamente lhes seja familiar o nome do programa, então aí assistir a esse programa já não é normal. Também podemos fazer cálculos mais alargados à escala mundial e então assistir ao "ídolos" volta a ser normal e anormal não o fazer. Definitivamente eu não vou passar a fazê-lo e não me considero nem devo ser considerada anormal por causa disso. A (a)normalidade é relativa (este é sempre um bom adjectivo a empregar quando não se consegue ser suficientemente profundo na análise de uma questão ou ideia; ou também quando não se quer ofender alguém) e por isso é tão importante quebrar o círculo de normalidades que nos habituamos a conhecer... E olha, espero que encontremos rápido uma bomba de gasolina ou teremos de voltar para casa à boleia.
rapariga 1: O quê? Não acho normal que te tenhas esquecido de pôr gasolina no carro!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

"viver sempre também cansa"



"Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

[...] E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..."

(José Gomes Ferreira)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

"Now is the only time I know"


Ele: Acho que devíamos deixar passar algum tempo...
Ela:...
Ele: Não dizes nada?
Ela: (lentamente e a marcar com precisão os "r" das palavras) És capaz de te aperceber do absurdo contido nessa afirmação?
Ele: ???
Ela: O tempo passa, quer deixemos, quer não. E duvido que se incomode em pedir-nos licença. (sorri e levanta-se do banco onde ambos estão sentados). Eu recuso-me a dar tempo ao tempo. Recuso-me a dar ao tempo algo que ele já tem e que me rouba continuamente, a cada momento que passa.
Ele: !!!
Ela: (volta-se para ele ainda, mesmo antes de se afastar) Sorry boy, but "NOW" is the only time I know!

(http://www.youtube.com/watch?v=R3XkZbVB2qw)