terça-feira, 20 de janeiro de 2009

a casa


Num daqueles dias de meteorologia indecisa (em que nem o sol escolhe desvendar-se completamente e nem a chuva chega a ser mais do que uma ameaça), eles passeavam juntos, como de costume, dando-se as mãos e trocando mais beijos do que palavras. A casa apareceu do lado direito, quase no fim do caminho por onde tinham escolhido perder-se dessa vez. Meia escondida por um jardim maltratado e de arquitectura excêntrica (como se alguém se tivesse entretido a testar ali os vários estilos da história da arte) prendeu, de imediato, a atenção deles. Contagiado pelo entusiasmo dela (parecia enfeitiçada pela casa estranha), ele acedeu a mudarem-se juntos para lá. Mas, uma vez esgotada a liberdade feliz dos primeiros dias (em que viviam sem regras, nem horários, possuindo apenas um colchão instalado na divisão maior, como se fossem campistas sob um céu estrelado e uma lua cheia), ele começou a sentir que a casa revelava a sua estranheza. Primeiro, foram só detalhes, quase insignificantes, a despertar o desassossego: roupas que apareciam meticulosamente lavadas e arrumadas (sabendo ele que ela nunca cuidaria de tal); sapatos que desapareciam do sítio onde os tinha deixado; páginas escritas numa caligrafia que não era a sua. Depois, foi o cheiro um pouco bafiento da casa que se colou a ela, e, por mais que ele não o quisesse, despoletou um sentimento até aí desconhecido de repulsa física. A seguir, sombras do passado, que ele se recusava a ver reveladas nos espelhos, foram a fonte de uma constante inquietude. Porém, o pior de tudo, ainda foram as palavras, que vieram ocupar o espaço antes reservado aos beijos: voavam de um para o outro, com uma agressividade letal. Um dia, ele encontrou uma porta na casa estranha, de que nunca se tinha dado conta até então. Abriu-a curioso e foi preciso agarrar-se à ombreira para não se despenhar no abismo assim desvendado. Nesse dia, fechou a porta atrás de si e voltou para a guerra fria, instalada na sala de estar. Não lhe disse nada sobre a porta misteriosa; já sabia que ela não ia acreditar. Passou um dia, e mais outro, e ainda outro depois desse, até que, finalmente, ele cedeu ao apelo. Subiu as escadas que levavam ao andar de cima, abriu a porta e aproximou-se devagar, um pé cauteloso atrás do outro, de modo a prevenir a queda abrupta no vazio. Aguardou o momento certo, antecipando o prazer da insensatez suprema. Depois, abriu os braços, encheu o peito de ar e de coragem, e deixou-se cair no espaço, numa vertigem de prazer imbecil, sem limites e sem censura...
Nunca mais houve notícias dele. A certa altura, ela deixou de procurá-lo. Dizem que ainda vive na casa estranha, de arquitectura excêntrica e de cheiro bafiento, com uma porta misteriosa que, certamente, até hoje desconhece.

1 comentário:

  1. Podias abrir um pouco mais essa porta para nós também podermos entrar ...

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