
Quando ele chegou a casa, encontrou-a estendida sobre a cama, o quarto na penumbra, o corpo nu. O vestido novo (o preto, sem costas, que lhe fica tão bem) pendurado na porta do armário, os sapatos, de salto muito alto e muito fino, arrumados do lado direito. No ar, um cheiro doce a amêndoas e mel. Na mesinha de cabeceira, a carta que dizia "para ti", explicava também: vou-me embora. a morte, porque definitiva, é o momento mais perfeito da vida. preciso de salvar-me da falta de harmonia das coisas imperfeitas. não suporto mais viver na franja, no limiar. quero encontrar o centro, chegar ao fundo. preciso de saber o que existe do lado de lá. scusa.
Demorou muito tempo até que ele sentisse alguma coisa. E foi só depois de terem passados muitos dias, meses até, sem uma queixa, sem uma lágrima, agarrado à segurança de uma rotina feita de dias iguais, à espera de ter a certeza de que conseguiria sobreviver, que ele esboçou um sorriso. Por causa da última palavra da carta. Só ele, que a conhecia tão bem, teria sido capaz de perceber: ela preferia o som daquela palavra ao da correspondente, em português.
Magnifico texto... muito bom mesmo ...parabéns
ResponderEliminarUma Grande Chama para ti...beijos
É arrepiante!! A morte como busca da calma e tranquilidades eterna.
ResponderEliminarNão deveria a morte ser um fim e nunca o principio do resto da nossa existencia?
Ana