domingo, 4 de janeiro de 2009

E se Deus fosse mesmo um de nós...

A educação num colégio de freiras e a imposição, materna e semanal, de assistir à Eucaristia do Domingo teve o efeito inverso do desejado e acabou por me alijar definitivamente dos ritos católicos. Agradeço-lhes a lição humanista de base e o mistério em torno do «segredo de Fátima» e perdoo-lhes o acentuar de um complexo de culpa atávico. A honra, a bondade e a caridade são mais enervantes do que a sua total ausência. Não há identidade possível com um cortejo de figuras tão desumanamente virtuosas, complacentes e sacrificadas. Aqui ganham os hindus com o seu acervo de deuses raivosos, vingativos e acentuadamente erotizados. Sem que isto signifique, porém, um particular fascínio pela apregoada espiritualidade do Oriente: tantos sadhus (homens santos) de mão estendida a protestar zangados pela esmola recebida ou pela falta dela; um Ganges que me faz primeiro pensar em doenças de pele de nomes difíceis e só depois em misticismo; o espanto (não desprovido de uma ponta de desprezo) por tantos ocidentais fascinados não sei com que revelação (o sentimento oceânico, desconfio, chega-lhes mais daquilo que inalam do que daquilo que apreendem). A espiritualidade, a magia, de um país descubro-a sempre nos seus habitantes: de sorriso aberto ou de cenho franzido; atentos ou indiferentes; dispostos à partilha ou ansiosos por me verem pelas costas. A espiritualidade da vida, é talvez (com certeza) um lugar-comum, descubro-a no outro e em toda a sua densidade.
Se acredito em Deus? Não sei, não me preocupo muito com isso.

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