quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

"este estado de ansiedade"


Um dia, era eu ainda uma estudante liceal, o telefone tocou estridente, a quebrar o sossego do meu livro, no quarto, e o desassossego do jantar da minha mãe, na cozinha. “Vamos rápido, a avó caiu”. O carro apressado a testar os limites da segurança rodoviária, o portão atirado com a força da ansiedade e, afinal, o alívio da minha avó sentada, consciente, a resmungar com a vizinha, que a socorreu, ao lado dela. A avó tinha uma energia impressionante e discutia e zangava-se sempre muito com tudo e com todos. Eu e a minha mãe dirigimo-nos um sorriso cúmplice: “afinal, está bem”. Durante o resto do dia, só ouvimos queixas e resmungos. Barafustou todo o caminho até ao hospital onde a levamos, por segurança, à consulta de ortopedia, “não é preciso ir a hospital nenhum, mas que desperdício de tempo”; aí, envergonhou-nos perante o médico, o especialista, de quem se adivinhavam os quarenta e cinco anos, pelo menos, “recuso-me a ser vista por este miúdo, ele sabe lá o que anda a fazer”; à saída, alternava as ordens “não me peguem no braço”, “não me deixem cair”. Discutiu ainda quando a levamos para a nossa casa “tenho tanta coisa para fazer” e “os gatos e os coelhos” e “a D. Maria que ficou de lá passar hoje e o snr. Augusto que vai amanhã experimentar o vinho” (ela que já não tinha produção de vinho há mais de três anos). A certa altura, a minha explosão impaciente: “ó vó”, queixei-me, “tu és tão difícil, só estamos a tentar ajudar, facilita a nossa vida um bocadinho, por favor”. Por um momento, só um breve momento (daqueles tão breves que, mais tarde, duvidamos não terem sido apenas um truque da memória), fixou os olhos, de um azul já apagado, em mim. Havia ali um misto de aviso com ameaça e condescendência arrogante, que me dizia em segredo: “um dia, tu vais compreender”. Depois do susto, mais tarde, à noite, fui encontrá-la sentada no sofá (o pequenino, verde, que ainda está no mesmo quarto onde ela morreu), em silêncio, o olhar perdido, desatento às notícias que a televisão indiferente berrava, e onde podia jurar que se adivinhava uma lágrima (embora isto pudesse muito bem ser só mais um daqueles truques da memória). Sem olhar para mim, despida das suas armas e da sua guerra, ouvi-a desabafar, o que lembro até hoje: “sabes filha, é muito triste, eu ainda quero, mas eu já não posso”.
A velhice apanha-nos rápido. Primeiro, são as rugas, a flacidez e os cabelos brancos a lembrar, sem misericórdia, que temos um prazo de validade, a transformar o “consumir de preferência antes do fim de” numa sentença implacável. Mas isto, isto ainda é só um Narciso infeliz a mirar-se na água, desgostoso com a fealdade que o tempo traça no seu corpo. O pior vem depois, quando os olhos já não conseguem ler, e os decibéis da televisão a incomodar os vizinhos dois andares abaixo, e as pernas que já não podem correr, e a memória a misturar o passado com o presente e com a ficção, e a irritar o interlocutor mais paciente, e a passividade de quem já não espera nada, o braço que pára no meio de um gesto esquecido...
Enganaste-te só numa coisa, avó, (e isto se aquele olhar eloquente alguma vez existiu) eu já compreendia, eu sempre compreendi. E é por isso este estado de ansiedade, que tantos julgam e condenam sem perceber, o desejo de correr o mundo e de viver muitos amores (e desamores, bem sei, recebemos o pacote) e de construir muitas memórias, feitas de cheiros e de sons e de palavras e de lugares, simples ou distantes, excêntricos ou banais; a urgência de ler e de escrever e de ter ideias e de aprender o mundo todo (compreendo que isto possa soar um pouco ingénuo). Eu sempre soube que não há segundas oportunidades, que a vida passa num sopro, e depois vem a morte e eu sei também que não a quero ver chegar. E não penses, avó, que tento enganar o tempo ou a memória, não me julgo divina. Eu desejo apenas que, quando chegar, impiedoso, aquele “quero, mas já não posso”, eu venha sentar-me, como tu, num pequeno sofá (pode ser verde ou de outra cor qualquer), e as memórias sejam suficientes para afagar a solidão, para esquecer a impaciência dos que ainda falam comigo, que eu possa desligar a televisão (porque os decibéis a incomodar os vizinhos) e sinta que, pelo menos, valeu a pena.

2 comentários:

  1. Aquela lágrima no canto do olho também aqui!
    E tenho a certeza que sentiremos que valeu a pena!
    Não podemos parar o relógio e por isso há que olhar para o hoje e tentar (digo tentar, porque sei que não é fácil fazê-lo sempre) viver sempre com intensidade, mesmo as coisas que sabemos que têm duração limitada!
    Se tiver valido a pena, permanecerá na memória e ajudará a "afagar a solidão"!
    Um Beijo.

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  2. «Gostava tanto de mexer na vida,
    De ser quem sou - mas de poder tocar-lhe...
    E não há forma: cada vez perdida
    Mais a destreza de saber pegar-lhe.»

    Mário de Sá-Carneiro

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