(fotografia de uma obra de George Segal, "Girl putting on mascara")Lembro-me de acordar de manhã e saltar rápido da cama para ter ainda a oportunidade de assistir ao teu ritual de preparação para o mundo exterior. Sem ultrapassar a ombreira da porta assistia quieto, de olhos redondos, atentos, ao cuidado com que passavas os cremes e pós pelo rosto, ao desenho do baton vermelho nos lábios, à cor muito leve que distribuías pelos olhos de forma espantosamente simétrica. Ficava particularmente deslumbrado com a máscara de pestanas: como podias de um modo rápido e displicente trazer uma pequena escova até tão próximo dos olhos para depois acariciar com ela as pestanas. Quando finalmente te apercebias da minha presença dirigias-me um sorriso de incitamento, estendias-me a escova e era eu que ajudava a dar ainda mais brilho aos reflexos vermelhos do cabelo que se estendia até depois dos ombros.
À tarde, depois das rasteiras e das maldades dos meninos da escola (que eu não percebia, talvez porque as botas ortopédicas e os óculos demasiado fundos, mas eu não percebia, porque nos teus olhos encontrava-me sempre perfeito, descobria-me um príncipe) eu corria para casa sem lágrimas. Pulava feliz pelo caminho fora porque sabia que o meu lanche pronto e o teu sorriso de lábios vermelhos me esperavam. Às vezes, deixavas-me sentar ao teu colo a ensinar-me as coisas que ainda estudavas em casa, até muito depois de aconchegares o meu sono, e eu recebia muitos beijos, sempre que dizia alguma coisa capaz de desenhar um sorriso feliz no teu rosto. Com empenho e muita atenção, coleccionava na escola e na rua histórias novas para te contar, só para te ver rir, só para as tuas mãos nos meus caracóis em constante desalinho e os teus beijos no meu rosto de criança. Eu era o teu menino e tu eras o meu mundo. Mais tarde, era eu quem beijava as lágrimas no teu rosto de mulher triste e desgastada pela vida, quando te mudaste para aquele lugar que eu não conhecia e onde nunca me deixavas entrar a não ser para escovar os reflexos vermelhos do cabelo que ainda se estendia até depois dos ombros (então mais frágil, a obrigar-me a ser ainda mais cuidadoso). Queria ser como tu, queria viver a tua vida, queria ser tu. Hoje sei que estás em mim pelos buracos que me deixaste quando te foste embora. Na verdade, o luto não é habituarmo-nos à perda da pessoa que partiu; é habituarmo-nos à falta dos bocados de nós que essa pessoa levou com ela. Como posso eu existir senão coxo e em desequilíbrio? Faltam-me partes, muitas, do corpo e da alma, e sei lá mais do quê que me faz eu. Como vou amar outra mulher, mãe? (E há tantas que insistem em ocupar o teu lugar… E não percebem que para tapar buracos assim é preciso usar a mesma matéria, que elas não têm, nem conhecem, como podiam).
Se eu fechar os olhos estás aí a passar a máscara pelas pestanas. Se eu os abrir, já não estás. Se eu os fechar de novo, mando-te embora e peço-te que me largues de uma vez. Imploro-te que me deixes existir sem ti, que me deixes ser sem a tua presença, que me livres desta fragilidade de ter de continuar a viver com a tua ausência. Se ainda os abrir mais uma vez, peço-te que voltes para mim, que me deixes escovar os reflexos vermelhos do cabelo até depois dos ombros. Porque te foste embora, mãe? Como pudeste deixar-me sozinho? E agora que já sou grande, que me tornei em muito mais do que alguma vez ambicionaste para mim, que sou mais temido do que receio, quem me defende das rasteiras dos meninos? Para onde corro, se os teus beijos de lábios vermelhos já não estão à minha espera?
À tarde, depois das rasteiras e das maldades dos meninos da escola (que eu não percebia, talvez porque as botas ortopédicas e os óculos demasiado fundos, mas eu não percebia, porque nos teus olhos encontrava-me sempre perfeito, descobria-me um príncipe) eu corria para casa sem lágrimas. Pulava feliz pelo caminho fora porque sabia que o meu lanche pronto e o teu sorriso de lábios vermelhos me esperavam. Às vezes, deixavas-me sentar ao teu colo a ensinar-me as coisas que ainda estudavas em casa, até muito depois de aconchegares o meu sono, e eu recebia muitos beijos, sempre que dizia alguma coisa capaz de desenhar um sorriso feliz no teu rosto. Com empenho e muita atenção, coleccionava na escola e na rua histórias novas para te contar, só para te ver rir, só para as tuas mãos nos meus caracóis em constante desalinho e os teus beijos no meu rosto de criança. Eu era o teu menino e tu eras o meu mundo. Mais tarde, era eu quem beijava as lágrimas no teu rosto de mulher triste e desgastada pela vida, quando te mudaste para aquele lugar que eu não conhecia e onde nunca me deixavas entrar a não ser para escovar os reflexos vermelhos do cabelo que ainda se estendia até depois dos ombros (então mais frágil, a obrigar-me a ser ainda mais cuidadoso). Queria ser como tu, queria viver a tua vida, queria ser tu. Hoje sei que estás em mim pelos buracos que me deixaste quando te foste embora. Na verdade, o luto não é habituarmo-nos à perda da pessoa que partiu; é habituarmo-nos à falta dos bocados de nós que essa pessoa levou com ela. Como posso eu existir senão coxo e em desequilíbrio? Faltam-me partes, muitas, do corpo e da alma, e sei lá mais do quê que me faz eu. Como vou amar outra mulher, mãe? (E há tantas que insistem em ocupar o teu lugar… E não percebem que para tapar buracos assim é preciso usar a mesma matéria, que elas não têm, nem conhecem, como podiam).
Se eu fechar os olhos estás aí a passar a máscara pelas pestanas. Se eu os abrir, já não estás. Se eu os fechar de novo, mando-te embora e peço-te que me largues de uma vez. Imploro-te que me deixes existir sem ti, que me deixes ser sem a tua presença, que me livres desta fragilidade de ter de continuar a viver com a tua ausência. Se ainda os abrir mais uma vez, peço-te que voltes para mim, que me deixes escovar os reflexos vermelhos do cabelo até depois dos ombros. Porque te foste embora, mãe? Como pudeste deixar-me sozinho? E agora que já sou grande, que me tornei em muito mais do que alguma vez ambicionaste para mim, que sou mais temido do que receio, quem me defende das rasteiras dos meninos? Para onde corro, se os teus beijos de lábios vermelhos já não estão à minha espera?
simplesmente LINDO!!!
ResponderEliminarÉs fantástica.
Beijinho
Obrigada, tu também!
ResponderEliminarBeijinhos