domingo, 19 de abril de 2009

"... please don't let me be misunderstood"


Muitas vezes dou comigo em desgastantes exercícios mentais de arrependimento sobre as coisas que fiz ou que disse, as opções que tomei, os erros que cometi, as pequenas falhas que podia perfeitamente ter evitado. De uma forma exaustiva (quase maníaca) analiso todos os possíveis caminhos alternativos começados por um “se”. Agrada-me o conforto de perceber que todas as intersecções virtuais teriam conduzido ao ponto A (aqui), aquele em que me encontro. Um dia destes, acabei a lembrar-me de ti. Da palavra "desculpa" que não cheguei a dizer embora ela me ocupasse toda durante os 4, 5 minutos que demora o caminho que percorremos juntos até à estação. É que eu não me sentia culpada e, por isso, a palavra morria afogada na minha garganta. Mas concentrava-me tanto na vontade de desfazer um mal-entendido que (pareceu-me na altura) se tinha criado entre nós que não atinava em fazer afirmações coerentes na conversa de circunstância que escolhemos para encher o tempo daquele percurso, demasiado breve para desfazer mal-entendidos. À despedida, um beijo apressado, daqueles demasiado empenhados em assegurar a indiferença (não fosse eu pensar, não fosses tu pensar). E demasiado apressado para ajudar a desfazer mal-entendidos. Atravessei a minha rua, sem olhar para trás. Tu seguiste o teu caminho, noutra direcção. Entretanto, como nos filmes - a conferir cinzento e fragilidade à personagem -, começou a chover. Apressei-me a entrar na estação e, ao cruzar as portas de vidro (aquelas automáticas que nos dão sempre uma pequena sensação idiota de controlo), a Nina Simone começou a cantar: "I'm just a soul whose intentions are good...". Como nos filmes, exactamente como.
Sabes uma coisa, ainda bem que quatro minutos e meio não chegam para dar explicações ou desfazer mal-entendidos. É que eu não teria sido capaz de explicar. E mesmo que tivesse, tu nunca terias sido capaz de entender.

3 comentários:

  1. E ontem foi na verdade um tempo de nostalgia... o "se" das várias ocasiões rondou-nos!
    Chegamos à conclusão que o caminho, como sempre, é para a frente e as desculpas "são só mesmo para aquelas coisas que tomamos consciência que fizemos sem a intenção de magoar/chatear a outra pessoa e que se pudéssemos voltar atrás não teríamos feito nada assim"... há momentos em que as nossas atitudes/palavras não podiam ser outras...
    Sorrisos na direcção Norte

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  2. Não se trata bem de "nostalgia", de luto, pelas perdas, que viver uma vida implica sempre. É arrependimento pelo mal que se causa com os erros que se cometem. Arrependimento tantas vezes escusado porque se o mal-entendido surge é porque o "encontro" não se deu.
    ...e "encontros" são sempre bem-vindos, lembras-te?
    sorrisos bem largos para sul;)

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  3. Quando penso no "arrependimento" pelas minhas perdas (e como sabes causadas por mim.. e só por mim) tenho que virar o "disco encravado" e pensar que as minhas decisões e acções estão contextualizadas num momento.
    ...e lembrar-me que nesse dito momento estavamos dois seres.. eu não estava sozinha na sala quando ouvi dele "amanha vou-me embora"!!!.. eu não estava sozinha quando lhe disse que não estava feliz!!!... eu não estava sozinha quando lhe perguntei o que estava a acontecer entre nós!!!

    Simplesmente aconteceu porque ambos queriamos que acontecesse...

    Arrependimento!! é um sentimento tão negativo!

    Até 6a!

    Ana

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