segunda-feira, 8 de março de 2010

domingo, 28 de fevereiro de 2010

reflexões geométricas

(bauhaus - Berlim)

Era uma vez uma cidade entediada e maçadora, cujos habitantes não eram pessoas, mas sim figuras geométricas. Havia, essencialmente, nessa cidade entediada e maçadora, três tipos de habitantes geométricos: os círculos; os quadrados e os triângulos. Os círculos eram muito aborrecidos e desconcertantes porque giravam continuamente em torno de si próprios (como um cão que tente agarrrar o próprio rabo) sempre a queixar-se dos outros ou da sua sorte e, ciclicamente, de uma coisa ou do seu contrário. Os triângulos eram um pouco mais interessantes, mas incapazes de tomar uma decisão, sempre a hesitar entre os dois vértices opostos da respectiva base. Os quadrados, esses eram absolutamente insuportáveis; reuniam-se periodicamente e, armados com a sua lucidez patológica, julgavam resolver todos os problemas da cidade, reduzindo-os a um dos seus quadradinhos analíticos.
Se esta fosse uma estória de ficção haveria de aparecer, entretanto, um paralelipípedo glamoroso para salvar a cidade e libertar os poucos hexágonos que respiravam com dificuldade nas suas ruas geométricas. Mas esta é uma estória sobre tédio e, por isso, ninguém chega à cidade e nada acontece.

um rio que também não era nosso


No fim do jantar, ele servia-se de vinho uma vez mais, girava o copo de pé alto, entre os dedos, erguia-o um pouco, ao nível dos olhos, e proclamava solene: “como forma de vida, eu proponho o nomadismo – o antídoto perfeito contra o tédio!” Eu sorria, tilintava um brinde a firmar a aceitação da proposta e deixava o meu olhar demorar-se na beleza perfeita daquelas mãos de dedos longos que, dali a pouco, haviam de segurar-me a mim, e depois de novo a um copo de pé alto...
Jantei muitas vezes naquela casa de janelas grandes, debruçadas sobre o rio. Nas noites mais quentes, abríamos as janelas e deixávamos o rio correr pela sala. Amávamos aquele rio porque nos lembrava como tudo dura apenas um instante, como as alegrias e as tristezas fluem, suavemente, para lugar nenhum e não adianta correr atrás delas. Só as memórias nos pertencem, tudo o resto passa e nunca é, verdadeiramente, nosso. Passávamos horas a conversar, inventando destinos de nómadas, ou, em silêncio, apenas a olhar para o rio. Ele bebia muito, demasiado até, mas nele tudo era, na verdade, excessivo. Queixava-se sempre de que devíamos ter comprado mais vinho para o jantar, mas depois punha um disco a tocar e esquecia-se disso. Dizia que a música (e não o vinho) lhe permitia distanciar-se do mundo e consertar um pouco uma alma em desalinho.
Nunca nos tornámos nómadas – pouco viajávamos, aliás –, mas visitámos o mundo todo, levados pela corrente do rio, que enchia a sala, e pelas carícias do vinho que servíamos, sempre abundante, em copos de pé alto.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

um sorriso de palhaço

(detalhe de pintura em exposição na kunsthalle, Hamburgo, 2009)

- Emprestem-me um sorriso - pedi-lhes eu.
- Aqui não se dão, nem se emprestam sorrisos - responderam-me peremptórios.
- Tão pouco se vendem. Queres um sorriso? Desenha-o tu!
Assim fiz. Afastei-me alguns metros, até encontrar um lugar despido de gente e de sorrisos, sentei-me num banco pequeno e em frente a um espelho grande. Cerrei os olhos por alguns momentos, recolhi as memórias felizes e agarrei com força a esperança nas coisas futuras. Depois, abri os olhos e, com traço firme, desenhei um sorriso largo, de palhaço, que me escondia metade do rosto. Foi então que o palhaço se abeirou de mim, em silêncio, deteve-se um pouco a observar o meu reflexo no espelho e perguntou-me:
- How long can you keep that fake smile on your face?
- Not long enough... - respondi eu.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

amanhã é o mesmo dia


... pensar que é apenas uma tola, ingénua, ilusão esquizofrénica (que vamos alimentando sabe-se lá com que energia) aquilo que nos mantém presos ao trilho, atentos ao dia de amanhã. E se, afinal, amanhã não for outro dia, mas antes o mesmo dia, longo e repetido, igual ao de ontem e em nada diferente do de anteontem... E se estivermos presos, fechados, dentro de um círculo diário de coisas e factos e pessoas tão levemente dissemelhantes que nem lhe sentimos a diferença, como vamos escapar?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Fecha a porta, quando saíres


- ...e depois?
- ...depois, mais nada. Quando dei por mim, tinha chegado o tempo do silêncio.
- ...do silêncio?
- Sim, o tempo em que já não sobrava nada para dizer. Isto é, nada que pudesse interessar aos outros ouvir. Ou, pelo menos, nada que a mim me interessasse acrescentar.
- ...
- Sabes como o mundo está cheio de palavras inúteis, não sabes? As pessoas gastam o tempo e o espaço a contarem umas às outras coisas tão desnecessárias como: as poucas horas de sono que dormiram; os sonhos que tiveram; os detalhes da dieta que fazem; as aulas de ginástica que apreciam; as gracinhas dos seus filhos (e pior, dos filhos dos amigos); as dores que sentem; o número de horas que trabalharam... Julgam que isto as aproxima, mas não, afasta-as porque leva a que se fartem rapidamente umas das outras.
Pois, quando dei por mim, estava a dizer as últimas palavras e, na verdade, já nem essas importava ter dito.
- E quais foram essas últimas palavras?
- ... fecha a porta, quando saíres.

(espera-se que não se desespere)

(centro franco-moçambicano, Maputo, 2008)
o tempo suspenso. a falta de autonomia. o espaço, lentamente, a tornar-se mais pequeno. levantar, sentar, levantar outra vez. girar em torno de si próprio, sem sair do sítio. agarrar as coisas em volta e ficar a vê-las escorrer, como areia fina, por entre os dedos. levantar, sentar, levantar outra vez. preparar-se para o pior. preparar-se para o melhor. preparar-se para o que der e vier. enlouquecer antes de confirmar que se estava bem preparado. levantar, sentar, levantar outra vez. estar à espera…

…à espera

que as espigas dourem;
que a sorte vire;
que a chuva passe;
que o telefone toque;
que o correio chegue;
que o Verão comece;
que a dor da perda se desfaça;
que o mundo entenda;
que o amor aconteça;
que as coisas façam sentido;
que o dia acabe;
que o sono venha;
que a luz da manhã seque as lágrimas à lua;
que a festa comece;
que ninguém descubra;
(que o imbecil sentado ali em frente se cale de uma vez);
que a festa termine;
que o telefone toque (se eu contar até 50; se eu não pensar mais nisso);
que o correio chegue;
que a campainha soe;
que a dieta resulte;
que o táxi nos leve para casa;
que o sabor da vingança não envenene a alma;
que o telefone toque (se eu sair da sala; se o puser em silêncio)
que nos dêem uma segunda oportunidade;
que tudo corra pelo melhor…

…à espera
que alguém nos salve;
que a morte chegue.