terça-feira, 26 de outubro de 2010
"nous nous aimions le temps d'une chanson"
Ao filme que relembra o ícone, ao charme da decadência, às últimas consequências, ao beber a vida até ao fim da garrafa, à imortalidade da ruína, à preversão, ao destruir o corpo para imortalizar a vida... ao tempo de uma canção...
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Ele, as coisas dele e um bocadinho dela

Ele gostava de objectos, gostava de os coleccionar e gostava de os exibir (o seu carro; os seus óculos de sol; os seus quadros; as suas músicas; a sua colecção de relógios), cioso do impacto que exerciam sobre os outros. Ela gostava sobretudo de palavras, gostava de as ler, de as escrever, de as ver representadas ou até apenas expostas em prateleiras à espera de serem lidas.
Ele, quando falava, era porque considerava útil ou importante dizer alguma coisa. Ela, quando falava, era porque as palavras lhe ocupavam demasiado espaço dentro do peito e precisava de as fazer sair pela boca. Mas ambos gostavam de estar em silêncio e percebiam a desnecessidade de encher o espaço de palavras escusadas. Bastava a cidade, intensa, vibrante, viciosa, e quase sempre em proscénio.
Ele gostava de velocidade. Ela não. Ele confiava na sua própria atenção e vigilância, mas sentia-se perdido no caminho novo que ousava agora experimentar. Ela tinha medo de tudo e duvidava continuamente de si própria, mas percorria consciente e confiante o caminho que tinha escolhido.
Ele era um homem e ela era uma mulher. E isto, só por si, fixa fronteiras. É um princípio e é um fim.
Entre os dois, um desejo forte, quase palpável, a preencher o ar e a iludir fronteiras...
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
"I don't want to get over you" #2
Entre as pernas, há um nome, sempre o mesmo. Quando ninguém vê, tacteia devagar à procura do desejo até encher de humidade a solidão, num ritmo vibrante, inesgotável, sempre o mesmo.
Nas gavetas, há palavras que giram numa roda-morta sobre o papel. Sempre as mesmas. Não queimam os dedos, não afogam o olhar e nem param o dia, mas doem por dentro, naquele sítio inidentificável, sempre o mesmo.
Nos dias de sol há uma saudade, sempre a mesma, das janelas abertas, da música sorridente, da melancia fresca e das sestas de Verão.
Num espaço escondido, ao fundo do corredor, debaixo da desarrumação (sempre a mesma) do armário pintado de branco, há um par de sapatos, cobertos de pó, que descalçaste ao sair da última vez… sempre a mesma.
Nas gavetas, há palavras que giram numa roda-morta sobre o papel. Sempre as mesmas. Não queimam os dedos, não afogam o olhar e nem param o dia, mas doem por dentro, naquele sítio inidentificável, sempre o mesmo.
Nos dias de sol há uma saudade, sempre a mesma, das janelas abertas, da música sorridente, da melancia fresca e das sestas de Verão.
Num espaço escondido, ao fundo do corredor, debaixo da desarrumação (sempre a mesma) do armário pintado de branco, há um par de sapatos, cobertos de pó, que descalçaste ao sair da última vez… sempre a mesma.
sábado, 18 de setembro de 2010
o idealismo
"Se na sociedade gostam dos artistas e têm para com eles uma atitude diferente da que têm para com os comerciantes, por exemplo, é porque isso está na ordem natural das coisas. Chama-se a isso idealismo."
(Anton Tchékhov, A Gaivota)
(Anton Tchékhov, A Gaivota)
o isolamento
"Somos duas raças na terra. Os que precisam dos outros, que os outros distraem, ocupam, repousam, e aos quais a solidão estafa, esgota, aniquila, como a ascensão de um terrível glaciar ou a travessia do deserto, e os que os outros, pelo contrário, cansam, aborrecem, incomodam, derreiam, ao passo que o isolamento os acalma, os banha de repouso na independência e na fantasia do seu pensamento."
(Guy de Maupassant, in «Contos do insólito»)
(Guy de Maupassant, in «Contos do insólito»)
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
regressar. partir.
Regressar. ao mesmo lugar das facas na cozinha. à mesma vista da janela. àquele maço inamovível de papéis desarrumados. ao barulho antigo, se bem que os vizinhos novos, do andar de cima. as mesmas contas na caixa do correio. os mesmos nomes no telemóvel. o mesmo silêncio do fim de tarde. a velha necessidade de comprar uma carpete, de pintar as paredes de outra côr, de montar mais prateleiras. o mesmo programa de pré-lavagem da louça. os mesmos sacos de lixo. a mala ainda aberta, cheia de coisas que ilusionam a estabilidade da chegada a atardarem o regresso à gaveta de sempre. Onde cabe a diferença entre aquilo que éramos (antes de partir) e aquilo que somos agora (depois de regressar)? Sobra pela casa, a atrapalhar os passos no corredor e a desarrumar prateleiras, a tornar feia a sala-de-estar.
Felizmente, o odor salgado do mar a prometer que um dia (certamente que um dia) compro um bilhete só de ida e atraso tanto o regresso que, quando este chegar, já vai ter o sabor de partida.
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