

Desde o desaire de um Portugal – Grécia de má memória, em 2004, que eu não tinha voltado a pôr os pés no estádio do Dragão, mas no Sábado à noite não resisti ao convite paterno para assistir a um Porto – Sporting. Fui para o evento desportivo com a curiosidade do fotógrafo e a neutralidade da Suíça. Comecei por me deixar prender pela beleza de um estádio de futebol antes de se dar início a um jogo: o verde da relva brilha em contraste com o traço branco dos limites das áreas; os holofotes, já acesos, gritam contra o preto da noite e anunciam no campo um palco de estrelas; a publicidade alegre dá a nota de cor final. Depois, surpreendi-me com o escrupuloso respeito das horas, num país consabidamente pouco dado à pontualidade: uma hora antes do jogo começar e o estádio já está bastante povoado; dez minutos antes do início da partida, está repleto de braços que seguram ou fazem ondular plásticos e cartões brancos, azuis e também verdes, e de vozes que ensaiam hinos de incitamento. A surpresa seguinte foi a rapidez com que abandonei a prometida posição de observadora imparcial: tinham passado apenas alguns minutos do apito para o pontapé de saída e já eu dava por mim empolgada na torcida. Que me perdoem os adeptos do FCP, mas nessa noite o meu coração esteve ao lado dos leões. Porquê, sendo eu de origem nortenha? Porque estavam em posição de desfavor, a jogar fora de casa, contra o líder da tabela, depois de uma cansativa quarta-feira e o meu coração tende sempre a apoiar os mais fracos. Não tive a sorte da festa dos golos e a partida terminou sem euforia, mas a habilidade e a farsa dos jogadores em campo, o desespero dos treinadores no banco e os comentários apaixonados e comicamente tendenciosos dos outros treinadores, os da bancada, deixaram-me perceber, e até aderir, à surpreendente paixão que o espectáculo do futebol desencadeia. No Domingo à noite, e esta foi a última surpresa, dei por mim a contra-argumentar os comentários do Rui Santos. Dizia ele que o Sporting não deixou o Porto fazer a sua exibição, que apresentou uma estratégia fechada, cautelosa, de mau futebol. Ele é que é o especialista, mas, da minha sala, lembrei-lhe os gregos, esses sim cautelosos, todos colocados à defesa, já o Sporting, prossegui, exibiu força e habilidade no meio-campo e fez várias investidas, algumas perigosas, na baliza adversária. Na Segunda à noite, detive-me em “o dia seguinte”, na análise da queda do jogador do Porto na grande área do Sporting e de um eventual penalti não assinalado. Aí decidi que já estava a passar da conta: era só o que me faltava, além dos 1001 interesses e factores de distracção que já tenho, apaixonar-me também pelo futebol. Desliguei a televisão e voltei ao meu trabalho, à espera, na secretária.
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