domingo, 9 de maio de 2010

Flânerie # 2


Agradavam-lhe sobretudo as cidades. Gostava de caminhá-las, sem relógio e sem destino, porque acreditava que ao acariciar as ruas com os seus pés (como a um amante com as suas mãos) fazia-as um pouco suas. Nunca entrava em museus ou monumentos, visitava apenas parques, cafés e estações de comboio porque era aí que as cidades desvendavam os seus segredos. Com os olhos procurava as coisas em que ninguém reparava, e com os dedos curiosos abria as caixas que os outros escolhiam deixar fechadas.

quarto de hotel


Num outro tempo, diferente do nosso, um homem e uma mulher encontraram-se num quarto de hotel e inventaram o amor com carácter de urgência.
Ontem, um homem e uma mulher encontraram-se num quarto de hotel e usaram o amor com displicência. Eles não são culpados, apenas têm pressa. Os corações ainda são ternos, o silêncio ainda une e os olhares ainda são aflitos, mas não resta o que inventar. O amor já foi inventado antes deles e eles já se inventaram em outros lugares. Ele é apenas um parêntesis na vida dela e ela é apenas uma coisa mais na vida dele. Ele chama-a e ela vai (abre-se o parêntesis). Ele afaga-lhe demoradamente o cabelo longo até sacudir todos os vestígios de monotonia. Ela oferece-se num sorriso calmo a fazê-lo sentir-se menino outra vez. Ele serve-se dela e ela serve-se de um amor transitório. Ele despede-a e ela volta para casa (fecha-se o parêntesis).
No quarto de hotel não há dia seguinte e não é preciso fazer a cama desfeita.

(Há uma alusão a "a invenção do amor" de Daniel Filipe)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

à hora do azul-escuro


Quando sentires que a angústia se instala sob a tua pele e rói, teimosa, a tua carne, não faças nada. Fica apenas atento à côr do céu. Aguarda que chegue a hora do azul-escuro. Então, pega no teu casaco e sai para a rua. Não tenhas medo, a noite há-de proteger-te. Ela é a casa dos que, como tu, não pertencem a nada nem a ninguém. Ela deixa que te escondas atrás dos teus segredos. À noite, a solidão é um artifício, a decadência é apenas a ficção que escolheste e os estranhos companheiros do declive. Mas mantém-te atento à côr do céu. Quando voltar o azul-claro, a solidão será a tua, de sempre, e a decadência matinalmente real. O dia está aí à tua espera e não adianta implorar à noite que o ludibrie. Na verdade, foste tu quem o escolheu, por isso, agora não te lamentes se não lhe podes escapar.


Sabes o que o dia diz à noite mesmo antes de a matar? Obrigada por me devolveres, ainda vivas, as minhas presas...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Barceló ou a arte a garantir a sanidade

("sem título", 2009, fotografia tirada à socapa)
Uma chuva fria e insistente, atípica numa Madrid conhecida pela secura, levou-me ao refúgio dos museus. Bendita chuva domingueira que, depois de me encharcar e arruinar o humor, proporcionou-me também o prazer de descobrir Miquel Barceló, do qual conhecia apenas o nome. A exposição, patente na Caixa Forum (de 10 de Fevereiro a 13 de Junho de 2010), designa-se "la solitude organisative" por motivo de um quadro recente do artista que apresenta um gorila sentado, com ar sério. O Autor mistura, de modo pouco convencional, cores e matéria orgânica (pó, areia,teias de aranha, etc). O resultado é extremamente apelativo e revelador de uma saborosa ironia (é, por exemplo, exibida uma escultura que consiste em uma caveira preta com um nariz comprido que o artista designa como "pinóquio morto"). Bendita chuva e benditos artistas, que fascinam e surpreendem, e me reconciliam com a vida...


Art is a guaranty of sanity, diz um íman metálico do meu frigorífico. Talvez não para quem a concretize, mas para quem, como eu, a recebe com genuíno prazer, definitivamente, sim, a arte é uma garantia de sanidade.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

aleatoriedade





Naquela tarde, tinha decidido ir ao teu encontro apenas para dizer-te que precisava de ti na minha vida, a maneira de ficares, que a escolhesses tu, satisfazer-me-ia uma qualquer, desde que não me excluísses do teu quinhão de espaço e de tempo neste mundo. Aceitaria a proposta que me fizesses, ainda que pouco razoável, contanto ficasse salvaguardada a regra de ouro: nunca aparecer sem anúncio prévio, confirmado com a devida antecedência. Enquanto percorria a pé os poucos quarteirões que separam a minha casa da tua, lembrei-me da Billie Holiday a cantar “life is sweet when we walk on the sunny side of the street” e atravessei a rua para o lado exposto ao sol. As montras felizes das pastelarias que estão situadas desse lado convidaram-me a entrar. Escolhi uma ao acaso, entrei e pedi um pastel de nata com canela. Espalhei um pouco de canela no pastel e, enquanto o fazia, ocorreu-me a memória de uma amiga que não suporta este cheiro. Por causa disso, fiquei com pena da canela e espalhei um pouco mais. Apercebi-me de que o «mais» era «demais» quando encontrei o olhar surpreso de um cliente ocasional no meu pastel submergido por uma pequena montanha de canela. Expliquei-lhe que me dava pena haver quem não suportasse o cheiro da canela. Recebi em troca aquela expressão (um misto de espanto e de resguardo), que guardamos para os loucos que ainda não perceberam que são loucos (nós sim, já percebemos que o são) e se julgam senhores da respectiva lucidez. E vai mais um que pensa que eu sou maluca, pensei, não sem algum desânimo, ao sair da pastelaria. Por isto, e só por causa disto, já não fui a tua casa naquela tarde. Voltei para trás, devagar, pelo caminho da sombra, conformada com a impossibilidade da tua presença.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

um Picasso ainda jovem


Ele trazia os bolsos repletos de ideias que se adivinhavam no sorriso feliz com que aquecia o ar à sua volta. Tirava uma ideia do bolso e oferecia-a a quem quer se cruzasse com ele. A si próprio, nunca se oferecia, precisava de se guardar para as suas ideias, explicava, às vezes, em conversas fugidias. Agradou-me imediatamente, quando o conheci, mas não pelas ideias que pousava à minha frente, na mesa do café. Foi por causa da camisola de riscas longitudinais azuis, que ele usava, naquela noite, e que me trazia Picasso à memória.
Não estou bem certa se nos interessamos pelas pessoas ou pelas coisas das pessoas, ou se às vezes é de uma maneira e de outras vezes é de outra. Mas sei que é bom agarrarmo-nos à matéria das coisas felizes...

avareza

(detalhe da pintura "Perfecto" de Allen Jones, Kunsthalle, Hamburgo, 2009)
Amealhava tardes de sol, sorrisos felizes e coxas de mulheres, com a avareza de um sobrevivente de guerra, angustiado perante a eventualidade de um futuro, esquelético de sorrisos e de coxas, feito de tardes de chuva solitária a escorregar pelas janelas de uma qualquer instituição de solidariedade social.

Morreu numa tarde de sol, ainda antes de festejar os cinquenta anos de idade. A conta bancária não tinha saldo suficiente para pagar um funeral condigno. Coxas de mulher, na cerimónia fúnebre, havia apenas duas: as da irmã mais nova e as da mulher-a-dias, que acabara por se afeiçoar às suas excentricidades.