(a fotografia é minha. o quadro é de Jorge Guinle)É fácil identificar os sinais: as mensagens na caixa de correio, logo ao despertar; os telefonemas só para saber como estou e os mails enviados a propósito de uma coisa qualquer que eu disse ou que captou a minha atenção e da qual já nem sequer me lembro. As iniciativas nunca são minhas, cabem-lhe sempre a ele. Os projectos para dois são muitos e, sem querer, eu estou incluída. Se de repente amuado (ou momentaneamente consciente) me transfere o ónus do próximo encontro ou de combinar o programa seguinte, eu não o faço, ele arranja uma desculpa qualquer para voltar a dar notícias. Sempre que isto acontece eu penso: ainda bem que desta vez não sou eu…
Em certa ocasião, um desses amantes incautos (ou apaixonados, o que dá quase no mesmo) disse-me, chegado o fim dos telefonemas e das iniciativas sem reciprocidade bastante:" pelo menos senti-me vivo, vi o mundo a cores fortes". Eu, que das coisas da vida considero a paixão uma das mais inúteis e desprovidas de senso, sorri apenas. Depois, ainda a sorrir, encarei o dia de olhos semicerrados. Para que estes bebessem o amarelo intenso do sol, o azul inspirador do mar, o verde fresco da relva e o vermelho alegre das barracas de gelados, numa mistura caótica de imensa beleza.
«pirilampo: ser que alumia um mundozito de cada vez e ajuda poetas a encontrar iluminossílabos desprovidos de grande significação. («sabe por que minha luz é tão mínima? é que estou a procurar coisas dentro de mim mesmo ...»).
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sapo: vive em ânsias de ser beijado por princesas. acredita em vidas passadas, onde julga ter sido príncipe. mestre de cantoria e sapiência. pratica a perigosa arte de encher balões em suas próprias bochechas. gosta de quebrar silêncios da noite.»
in «Bichos convidados (de a a z)», de Ondjaki