sexta-feira, 13 de março de 2009

a mulher do rosário de pau-preto


Depois de ter ouvido o estalido seco da porta a fechar-se atrás de si, passaram vários segundos demorados até que os olhos dela se habituassem à falta de luz daquele espaço estranho. Primeiro, o medo a comer-lhe o estômago e a bloquear-lhe os gestos. Depois, a força que julgamos não ter e se esconde não sabemos onde, a deixá-la ver duas camas estreitas encostadas a cada um dos lados da parede, uma com um vulto mal distinto, dois olhos abertos a fitarem o tecto (e o que lhe pareceu um terço, nas mãos) e a outra vazia. Acomodou-se deste lado. Pousou as coisas, arrumou os sapatos aos pés da cama, e pensou em morrer ali mesmo, naquele momento. A falta de energia que esse gesto definitivo requer levou-a a estender-se na cama e ficar aí toda a noite, também de olhos abertos, fixos no tecto. A noite inteira, a ladainha (“Salvé Rainha…, Avé Maria…) vinda de um murmúrio do lado de lá não a perturbou. Falar, ouvir, agir ou até sentir eram funções bloqueadas. Os dias passaram naquele lugar. Acordava quando era necessário, fazia o que lhe ordenavam e à noite deitava-se, olhos postos no tecto. Se alguém a abordasse, não dizia mais do que duas ou três palavras: sim, não, talvez, não sei ou, de preferência, respondia com um gesto evasivo que se perdia no ar. Como pensavam que era louca, rapidamente se desinteressaram dela. Numa noite demasiado quente, em que a roupa se cola à pele e o calor, que tudo amolece, faz abrandar a raiva e a mágoa, ela contou a sua história à outra mulher, a do terço. Contou-lhe que estava ali porque tinha matado o seu marido à paulada. Não encontrou nenhum gesto de espanto ou surpresa nos olhos distraídos no rosário de pau-preto. Por isso, ela continuou a explicar os seus motivos. Anos e anos de maus-tratos, de cigarros apagados nas suas costas (nunca nos braços, para que não se visse, e sempre nos dias mais frios para depois dever andar tapada), de comida estragada no chão, por gestos de violência inútil; dias seguidos de um silêncio gelado; pequenos actos de enorme crueldade, como cortar-lhe a camisa preferida ou despejar o perfume novo (presente da sobrinha emigrada) pia abaixo; e, naqueles dias em que alguma coisa não era do seu agrado, o cinto dele cuidadosamente alinhado aos pés da cama, a preparar o medo que permitia a submissão aos golpes que lhe rasgavam a pele. Um dia, foi um pequeno detalhe, uma pequena coisa insignificante a despoletar o gesto de vingança. “Esta sopa está uma porcaria, nunca devia ter-te tirado de casa dos teus pais” e a mágoa toda reunida num braço de repente forte, de repente extremo. Morreu à terceira paulada. Foram certeiras, como se nunca tivesse feito mais nada na vida senão treinar aquele gesto preciso. Uma pausa longa, um sorriso estranho de quase loucura. Pela primeira vez, terminou ela, desde há mais tempo do que aquele que consigo recordar, é aqui, atrás das grades deste lugar estranho que começo devagarinho a perceber o que sente quem fala em liberdade.

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