quarta-feira, 4 de março de 2009

o homem sem desejo


Ele era um homem sem desejo e um homem sem desejo é um cadáver vivo. Por isso, mesmo que todas as manhãs despertasse célere ao primeiro toque do despertador, fizesse cuidadosamente a barba, abotoasse nos punhos peças de elegância e pendurasse no fato escuro de bom corte uma colorida gravata da moda; mesmo que conduzisse um modelo desportivo de luxo a caminho do sucesso profissional; mesmo que bebesse o requinte à hora do jantar com amigos e amigas (e até amantes) – ele estava morto. Isto não se percebia imediatamente. Na verdade, ele sorria, gargalhava até, com muita frequência, a atrair-nos para o buraco negro que trazia guardado dentro de si. Mas não podíamos ficar perto dele por muito tempo. Havia o risco de o buraco negro se instalar também dentro de nós: pequenino, primeiro, num sítio escondido, ao fundo do estômago, mas implacável, depois, a espalhar metástases pelo corpo todo.

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