



Sexta-feira à noite, em São Paulo, até para os menos folgazões, é obrigatória a “happy hour” num boteco. Como não custa nada respeitar obrigações deste género, rumámos, as duas amigas portuguesas mais as duas amigas brasileiras, até Vila Mariana para uma visita ao “Assembleia” (agora sem acento, por virtude de um acordo ortográfico, que, diga-se, tem tido bem maior impacto em terras brasileiras do que em terras lusas). O calor delicioso pedia pouca roupa, ar livre, muitas bebidas frescas, e acentuava a promessa de uma noite bem passada. Simpatizei imediatamente com o Assembleia, um típico boteco brasileiro de esquina, aberto para a rua, cheio de choppes e de boa disposição, com um comprido balcão de madeira a proteger a montra enorme de bedidas. O espaço estava tão cheio que foi preciso acomodarem-nos numa mesa improvisada na parte interior. À volta de temas tão essenciais como cortes de cabelo, roupas novas e, claro, a escassez de interessantes espécimes do género masculino, foram chegando os apetitosos (e altamente gordurosos) pastelinhos e bolinhos, e foram desfilando as cervejas e as caipirinhas de fruta (“maracujá”, “como?”, “márácujá”, “ah porque não falou logo moça?, agora eu entendi” – e falamos a mesma língua). Como sempre faço num sítio novo, passeei os olhos curiosos pelo boteco e acabei por me aperceber de que um homem, de cabelo curto branco-cinza e pêra da mesma cor, encostado ao balcão, dirigia à nossa mesa insistentes olhares libidinosos. Quem adopta este tipo de atitude não precisa de qualquer incentivo, por isso evitei que o meu olhar se detivesse nele o que não era assim tão fácil visto que ele estava mesmo especado à minha frente. A certa altura senti uma mão estranha no meu ombro despido e ouvi a voz masculina demasiado perto: “já percebi que você é tímida, mas vamos combinar um negócio: você vai no banheiro e aí eu saio junto”. Respondi-lhe com um gesto de negação incomodado. Mas, talvez porque sentisse necessidade de se justificar, o homem de cabelo branco-cinza não desistiu, voltou a abeirar-se da nossa mesa, desta feita guardando uma distância mais respeitável. E começou a dizer que estava a beber um copo ao balcão quando se apercebeu que, de uma mesa de quatro raparigas, duas estavam a olhar para ele (eu e a outra portuguesa). Aí fui eu que senti uma necessidade explosiva (aquecida pela noite e pelas caipirinhas de frutas) de explicar: “se está mesmo em frente a nós sempre especado a olhar é natural que a certa altura os nossos olhos passem nos seus”. “Moça, mas você olhou para mim mais de trinta vezes!” Era o que me faltava, agora era eu a provocadora. “Meu senhor” (uma pausa para dar gravidade e acentuar a distância), “com essa idade já devia ser capaz de identificar os sinais de interesse por parte de uma mulher. Por acaso eu pousei os meus olhos nos seus à procura de encontrar o seu olhar; por acaso esbocei algum sorriso; e por acaso brinquei com o meu cabelo nesse processo? Não, pois não? Olhei tanto para o senhor como para aquela mulher aí em frente: isso significa que também estou interessada nela?” O remate foi cruel, mas ele mereceu: “interesso-me mesmo é por homens jovens e bonitos, homens mais velhos só se forem muuuiiiito inteligentes e muuuiiito interessantes, e eu nem sei se é o seu caso”. Finalmente, ele desistiu e debandou.
Mas estes tipos não se enxergam? E não há diferença cultural que lhes valha.
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